domingo, 26 de agosto de 2012

Obediência




Por um monge do Mosteiro da Transfiguração - Santa Rosa - RS – Brasil

“Pela  profissão da obediência, os religiosos oferecem a Deus, como sacrifício de si mesmos, a plena entrega de sua vontade e por isso  se unem mais constante e plenamente à vontade salvífica de Deus.”(Perfectae Caritatis número. 14) 

A prática das virtudes e o desejo da santidade são, nesta vida, preparação e desenvolvimento da vida eterna. Para o monge, constitui isto, o conteúdo de sua vocação, pois este é convidado a viver já aqui na terra as realidades celestes.

Para a realização desta tão sublime vocação, S. Bento estabelece o recinto do mosteiro, como lugar propício ao seu desenvolvimento, é a chamada “escola do serviço do Senhor”. Nesta escola, porém, a perfeição não é buscada como algo particular do monge, mas, comum a todos os membros desta comunidade que poderá chamar-se santa, já que somará mais que santos individualmente. A comunidade é formada pelo Abade e pelos irmãos, a quem Bento dedica os capítulos 2 e 3 da Regra. É na obediência que encontramos o ponto fundamental de união entre essas duas partes, é ela o elemento vital que une todos os membros desse corpo único que é o mosteiro. É pela obediência também, que se viabiliza a prática da tão importante virtude da estabilidade, destacada por S. Bento no capítulo IV de sua regra, quando indica os instrumentos das boas obra, pois é por meio da autoridade que se evita tudo que perturbe a comunidade, ao passo que se realiza tudo que possa favorecê-la; se não há uma relação harmônica de obediência entre a cabeça e os membros do corpo é impossível haver comunidade e comunhão. Podemos dizer que a obediência é o que caracteriza a vida do monge cenobita. É ela a alma do seu compromisso cristão. Descrevendo os quatro gêneros de monges – anacoretas, sarabaítas, giróvagos e cenobitas – no capítulo I de sua Regra, São Bento caracteriza o “poderosíssimo gênero dos cenobitas” como “aquele que milita sob uma regra e um abade”(RB1,2), ou seja que vive sob a obediência. 

Para S. Bento, a obediência não é apenas a aceitação e o cumprimento das prescrições das constituições e dos superiores pela obrigação, nem confere à ela o mero valor funcional, sendo  necessário para o bom funcionamento da comunidade apenas. 

Obediência em S. Bento tem um sentido mais dinâmico e amplo; trás uma noção teológica e cristológica, uma noção que inclui tudo o que a S. Escritura expressa com o complexo conceito de  obediência. Como tudo na vida do monge, a obediência, que é simultaneamente amor e serviço aos  irmãos, é um sinal escatológico, isto é, tem uma referência à dimensão de eternidade da vida humana. Pelo voto de obediência, o monge coloca-se de maneira mais eficaz no mistério da vontade do Pai, aceito e vivido por Jesus. Através de seu voto, o monge entra diretamente no caminho escolhido por Cristo, e participa com Ele da missão de levar o mundo a seu verdadeiro destino, o Pai. Para compreender-se o sentido real da obediência que o monge professa, segundo Dom André Louf, é preciso fazer-se a distinção entre a obediência política e a obediência evangélica na comunidade monástica. Segundo ele, ainda hoje, na espiritualidade corrente, há uma confusão entre essas duas formas de obediência. A obediência política consiste em que os membros de uma sociedade prestem obediência 

a um chefe, em vista do bem comum e este, por sua vez, é obrigado a dar ordens a serviço do bem comum também. A obediência evangélica está ligada ao sentido da procura incessante da vontade de Deus, à escuta dessa vontade e estar disponível à ela, entregando-se ao seguimento de Cristo até o Pai, passando pela morte. É claro que as duas são importantes e necessárias no mosteiro, porém, a primeira está dentro da dimensão da segunda. Bento não se esquece da organização material da Casa de Deus, no entanto, realça também nelas a realidade sobrenatural; “veja todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos sagrados do altar”(RB.31,10). 

“O PRIMEIRO GRAU DA HUMILDADE É A OBEDIÊNCIA SEM DEMORA”

OBEDIÊNCIA – HUMILDADE
A obediência não é, pois, algo que subsista em si mesmo, que seja absoluto; é, antes, a manifestação de um valor espiritual maior, mais geral, a humildade. É o princípio pressuposto da humildade. Sem o  sentimento de obediência para com Deus e para com seu representante humano no mosteiro, em quem o monge, a cada ordem, ouve a voz do próprio Deus, não há humildade. Esta, porém, é o fundamento absolutamente necessário de todo o ser e agir do cristão, pois humildade é  o mesmo que verdade, reconhecimento da verdadeira posição do homem perante Deus, da criatura diante do Criador. Onde falta a humildade, reina a exaltação do próprio eu, o orgulho, a mentira. A verdade consiste na posição justa dentro da ordem divina.  Assim, tudo que é verdadeiro tem suas raízes na humildade da qual a obediência é a primeira manifestação. Onde não reina a humildade, reina o orgulho, como aconteceu no Éden.

OBEDIÊNCIA – “PRIMEIRO DEGRAU”

É em sua ligação com a humildade que a obediência adquire sua dimensão maior e se torna o “primeiro degrau” para aquele que deseja trilhar a via de Cristo, segundo Cassiano, o Mestre e por fim S. Bento. É o ponto de partida da humildade, que é verdadeiramente a via estreita e difícil que o monge toma para chegar ao Pai. O Mestre vai apresentar a obediência praticada pelos cenobitas como a “via estreita”, que chega até a imitação do martírio. Quando seguimos a história da obediência religiosa, em seu início  – sécs. II e III – não se fala de obediência, mas em seguir o Cristo em sua humilhação.

OBEDIÊNCIA – CRISTO – MONGE

O monge imita o Cristo, que assumindo a condição humana, faz da obediência um ato ininterrupto de obediência ao Pai, sendo o seu primeiro ato como homem o de pôr-se à sua disposição; “eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade”(Hb.10,7). Cristo obedeceu ao Pai em tudo até à morte, e morte de cruz (cf. Fl). Sua obediência vai até o momento em que diz: “tudo está consumado” (Jo.19,30). É o momento de retornar para o Pai.“Com o poder do Espírito Santo que recebe no Batismo e na Confirmação, os cristãos exercem uma obediência que não é apenas sociológica, mas verdadeiramente carismática, isto é, espiritual, segundo a graça e a missão que cada qual recebeu do Senhor. Por meio dessa obediência, especificamente cristã participa-se da obediência de Cristo ao Pai, com toda comunhão e gozo filal que implica, e também com a dor e sofrimento que a obediência implica para Cristo (cf.Hb.5,8). O cristão entra, assim, explícita e publicamente no mistério da redenção do gênero humano. (Augustin Roberts, Vida Monástica-elementos básicos, p.98)

Obedecer ao Pai foi para Jesus, uma alegria e ao mesmo temo foi “sua paixão”. Cumprir a vontade Daquele que o enviou foi seu alimento (Jo.4,34), sua vida. Os evangelistas no-lo apresentam com freqüência vibrando de júbilo e de gratidão porque faz ou vê fazerem a vontade de Deus. Cumprir essa vontade foi, no entanto, para ele, fonte inesgotável de sofrimentos: sua paixão, o cálice amargo que o Pai pôs em seus lábios para que o tomasse até a última gota. “Foi traspassado por causa de nossas transgressões, foi esmagado por nossas iniqüidades...”(Is.53,5). Convém ao monge e à todos os cristãos em geral, ter muito presente essa dupla face da obediência de Cristo, pois ela se perpetua na obediência da Igreja e, portanto, na obediência do cristão.Tanto a autoridade como a obediência eclesiais, são estabelecidas e mantidas continuamente por Cristo. Têm um aspecto evidente de comum serviço a Cristo, cabeça e pastor da Igreja, e de comunhão redentora com Deus e com os irmãos em Cristo.

OBEDIÊNCIA SEM DEMORA

Como já dissemos, a obediência pela obediência, tem o seu valor, mas não abrange toda a dimensão da obediência de Cristo e, por conseguinte, a obediência monástica, não culmina na força da explosão pascal. S.Bento diz: “obediência sem demora”. A demora é a intromissão da própria vontade, condenada para o monge, intromissão que se coloca entre a ordem e a execução. A demora abre as portas para os juízos e críticas pessoais e para a, também condenada, murmuração. O ato de obediência, por fim, torna-se uma decisão pessoal. Pode-se ter cumprido a ordem, se, porém, por descontentamento se nega o consentimento interior, revoltando-se por gestos ou palavras, a ação externa perde todo o valor sobrenatural. Os sentimentos do coração murmurador, os quais não escapam ao olhar de Deus, não permitem que o monge receba a graça e impõe-lhe o castigo do juízo divino, a não ser que o culpado busque com arrependimento o perdão.

Esta maneira imediata de obedecer é a atitude de quem nada tem por mais caro que o Cristo. Longe de ser um sentimento indigno, de escravo, tal obediência é prova e testemunho de um amor a Cristo, que tudo supera. Quem, pois, cumpre a obediência levada pelo amor a Cristo, realiza inteiramente vocação de monge.


VONTADE PRÓPRIA

São Bento, já no Prólogo da Regra, exorta aqueles que desejam militar sob o Cristo Senhor, que a renuncia às próprias vontades e a obediência são condições impressindíveis. Percebe-se que a obediência está altamente vinculada a este fator da renuncia à vontade própria, sem ela é impossível obedecer-se. Mais adiante, no cap. I e no cap. VII, Bento caracterísa a vontade própria como um jugo e um vício de escravidão (cf.1,11; 7,12), quando fala dos monges giróvagos (que vagueiam de mosteiro em mosteiro).
O voto de obediência consiste justamente em não fazer a própria vontade, mas a do Pai. A imitação ao Cristo em sua obediência, tem o seu enfoque central neste ponto  – “não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou”. Claro que a obediência não exclui a prudência humana, serve-se dela muitíssimas vezes. Mas a exclui como critério último para conhecer ou cumprir a vontade salvífica do Pai. Obedece-se porque quer-se obedecer, é um compromisso próprio. No entanto, é preciso que se faça isso não como uma obrigação por se ter comprometido, mas com amor, com o coração aberto –“é preciso que o irmão obedeça com bom ânimo, pois o Senhor ama ao que dá com alegria.”

Mas porque que é tão difícil par o ser humano desapegar-se de seus critério, pensamentos e avaliações próprias? Com o pecado original, uma das áreas que foram mais atingidas foi a vontade do homem. O que caracteriza o pecado original é a propensão a fazer nossa própria vontade contra a vontade de Deus, a tendência a seguir nossos próprios impulsos do momento, ainda que nos levem ao mal maior. É a inclinação a julgar como bom o que atrai nosso amor próprio. Mas, o caminho da conversão é o caminho da renúncia a si mesmo para amar a Deus mais que a nós mesmos. Finalmente, esta renuncia consiste simplesmente em cumprir, em toda a sua plenitude o primeiro Mandamento do Senhor: “amar ao Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma e com todas as forças.”(Dt.; RB.4,1)

Só quem renuncia à sua própria vontade para colaborar com outros no Reino de Deus pode sobreviver na batalha contra os vícios, os maus pensamentos e as fantasias humanas.

COMO CRESCER NA OBEDIÊNCIA?
Eis aqui alguns meios para auxiliar:

Antes de tudo abraçar a obediência como um  trabalho. Voltamos a Deus “pelo esforço da obediência”, segundo o prólogo da Regra. É árdua, duradoura e exige sacrifício. Às vezes ser torna mais difícil com o correr dos anos. Se muitos religiosos não crescem na obediência, é porque caem na rotina. Presumem-se obedientes quando, em realidade, nunca se submeteram ao superior cem por cento, corpo e alma. Dado nosso espírito moderno de independência, a obediência poderá ser tomada levianamente.“O abade Hiperíquio dizia: O oficio do monge é obedecer. Se o cumpre, ser-lhe-á concedido tudo o que pede na oração, e se porá de pé com confiança diante de Cristo crucificado. Porque o Senhor mesmo chegou assim à sua Cruz, feito obediente até à morte.”

-  Cultivar a vida de fé. É o mais importante. Nossa obediência não pode desenvolver-se sem espírito de fé.  Ao crescer a fé, cresce a obediência e vice-versa. O que não é fiel na obediência corre o risco de perder pouco a pouco sua fé. A pedra angular da obediência monástica á a convicção de que o que o superior determina é o que Deus quer no momento atual. “Aquele que vos ouve, a mim ouve”(Lc.10,16; RB.5,6,15). 
Com isto, não se elimina de modo algum, o diálogo, mas se indica o necessário espírito interior tanto do diálogo como da obediência.É preciso cultivar essas convicções da fé com leitura e meditação sobre o mistério da Igreja, a comunhão hierárquica como sacramento de comunhão com Deus. Pensemos na obediência de Jesus. Rezemos ardentemente pedindo a graça de crescer na obediência. Primeiro obedecemos a Jesus que fala pela boca de outros. Depois, descobrimos que ele obedece em nós e nós com ele. Tenhamos grande desejo de crescer assim e obedecer com perfeição. Deus o quer. É a condição necessária para quebrar a dura casca de nossa vontade própria e tocar o solo fértil de nossa identidade mais profunda em sua abertura para Deus. Foi justamente assim que Cristo se humilhou por nós até aceitar por obediência a morte e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou (cf.Fl.2,8-9).

APÊNDICE

Como é habitual na RB., a doutrina e as normas sobre a obediência têm, como ponte de referência e fundamento, algum texto chave da Sagrada Escritura. Os que de maneira mais constante e clara indica, seu pensamento nesta matéria cremos ser os seguintes:

a)      “Não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou” (Jo. 6,38; RB.5,13;7,32)   A renúncia à própria vontade, condição prévia para assemelhar-se a Cristo obediente, é um dos princípios  básicos da obediência beneditina.b)     “Quem vos ouve a mim ouve”(Lc.10,16; RB.5,6.15). A Regra e o Abade  constituem-se para o monge como sacramentos da vontade de Deus. 
Diante da regra e do Abade, a atitude do monge é, pois, uma atitude de fé.
c)     “Fez-se obediente até a morte” (Fl.2,8; RB.7,34). A participação do cristão e do cristão-monge no mistério da kenosis de Cristo deverá necessariamente ter também, numa obediência crucificante, seu expoente máximo.

d)     “Deus ama aquele que dá com alegria”(2Cor.9,7; RB.5,16)
A obediência do monge, enquanto prolongamento da obediência de Cristo, é também cruz  e alegria ao mesmo tempo. Deve ela ser fonte de alegria e para isso é preciso que seja amada, e para ser amada, que seja aceita livremente, sem coação ou imposição de qualquer  espécie.
       
BIBLIOGRAFIA

       *REGRA DE S. BENTO
*HERWEGEN, D. Idelfonso,osb (Abade de Maria Laach)
  SENTIDO E ESPÍRITO DA RB – Col. “Monástica”,Vol.4  pp.108ss.
Lumen Christi – Rio de Janeiro-RJ – 1953
*ROBERTS, D. Augustin
  VIDA MONÁSTICA-Elementos Básicos  pp. 97ss.
L.C. – RJ. – 1980
*PASCUAL, Augusto,osb (Abadia de Leyre – Espanha)
  O COMPROMISSO CRISTÃO DO MONGE
CIMBRA – 1994
*texto “a OBEDIÊNCIA MONÁSTICA”

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