Trabalho realizado por D. Paulo Domiciano, osb novembro de
2005
Com este trabalho pretendo expor,
de maneira bastante sucinta, o tema do acompanhamento espiritual, também
conhecido como direção espiritual, como parte integrante na dinâmica do
crescimento na vida espiritual.
Todo cristão, pelo fato de o ser,
é chamado à plenitude da vida cristã (LG 5). Tal plenitude é a realização da
vocação batismal à santidade, entendida como comunhão com Deus e com os homens,
na caridade. Para a concretização de tal vocação tomamos um “caminho”, que por
sua vez, não se percorre sozinho, mas onde outros, que já o trilharam, poderão
nos auxiliar.
Pretendo, portanto, apresentar os
elementos básicos desse processo de desenvolvimento, sua função no crescimento
espiritual e humano, as disposições necessárias para aquele que deseja ser
acompanhado e as de quem acompanha.
O que é acompanhamento espiritual?
É chamado “espiritual” por estar
relacionado às realidades interiores da pessoa. Prefiro o termo
“acompanhamento” a “direção”, visto que “direção”, suscita em muitos, por
diversos razões, a idéia de um “dirigismo”, ou seja, de autoritarismo,
repressão ou imposição em relação à pessoa e a sua liberdade. Quando na
realidade, a direção espiritual refere-se ao guiar pessoal e íntimo da pessoa,
a uma relação estável entre as pessoas, uma das quais recebe da outra ajuda que
a ilumina, sustém e acompanha no discernimento e realização da vontade de Deus,
para progredir na santidade. Não se trata de anular a pessoa do dirigido ou sua
autonomia, nem estabelecer relações de dependência viciosa em ambas as partes,
pois de modo algum se pode suprir o indivíduo naquilo que deve ser resposta
pessoal ao chamado pessoal de Deus. Portanto, expressões como “acompanhamento
espiritual”, “orientação espiritual” etc, pretendem não substituir o termos
“direção”, mas ressaltar as dimensões mais amplas e talvez esquecidas da
verdadeira e tradicional direção espiritual.
O acompanhamento espiritual (AE)
é a ajuda oferecida por alguém com experiência a um fiel que caminha para a
plenitude da vida em Cristo e no Espírito. Não se trata do trabalho pastoral
voltado para toda a comunidade cristã, mas daquele prestado a um de seus
membros, chamado, junto com os outros a ser perfeito “como o Pai celeste é
perfeito" (Mt 5,48).
Na caminhada para Deus há o
concurso de fatores espirituais e humanos. O AE visa a abrir cada vez mais o
espírito à ação do Espírito Santo e ativar os recursos psicológicos, para
engajá-los no esforço consciente e motivado rumo ao amadurecimento humano e
espiritual de toda a pessoa.
O trabalho que se desenvolve sobre
o plano humano e psicológico é considerado hoje como premissa indispensável
para introduzir de modo coerente e eficaz os fatores sobrenaturais: a fé, a
graça, os valores, a oração, os meios propostos pela ascética etc., que
constituem o dinamismo válido e necessário no esforço de conversão e de
perfeição. Tal perspectiva tem suas bases firmadas na teologia bíblica, onde o
homem criado por Deus –corpo, alma e espírito – é um ser único e indivisível. Por isso, é inútil
buscar apenas um aperfeiçoamento espiritual, como se isso fosse possível,
esquecendo-se do todo. Só teremos sucesso em nosso empreendimento de conversão
rumo à perfeição se nos conscientizarmos da necessidade de voltarmos os olhos
para cada uma das dimensões de que somos constituídos de uma maneira global e
totalizante. “Que eles sejam UM” ou UNOS (cf. Jo17).
No entanto, não devemos confundir
AE com terapia psicanalítica. O acompanhador deve conhecer o melhor possível os
mecanismos psicológicos mais comuns e as características comportamentais, mas o
objeto do AE não é simplesmente ajudar a conseguir uma personalidade sã,
estável e madura, mas pôr o acompanhado em condições de discernir a vontade de
Deus sobre si mesmo e ajuda-lo a levá-la a cabo. É verdade que sem
personalidade madura não se chagará à religiosidade adulta, à fé vivida com
liberdade e alegria: quanto mais madura é a pessoa, mais clara e
conscientemente pode viver sua vocação; porém também é verdade que quanto maior
for a fé, mais forças ter-se-á para superar as deficiências próprias e as dos
outros. Por isso, para que haja crescimento, é preciso que se promova ao mesmo
tempo o desenvolvimento harmônico de toda a pessoa.
Razão do Acompanhamento
Espiritual
Por saber-nos incompletos e
imperfeitos buscamos a conversão, ou seja, nossa configuração ao modelo
perfeito, o ícone do Pai, Jesus Cristo. Mesmo vivendo em Cristo e sendo movido
pelo Espírito, graças ao batismo, continua-se sendo pecador. Vivendo entre esta
dupla realidade, o cristão, ao mesmo tempo, sabe-se forte em Cristo, mas fraco
em si mesmo.
Na vida cristã vivemos entre
tensões, múltiplas provas e quedas do dia-a-dia, que não são estéreis, mas nos
conduzem à fé purificada, nos conduzem a uma progressiva sensibilidade
espiritual, a docilidade ao Espírito Santo. Elas nos revelam nossa verdadeira
condição, nossa necessidade de Deus. Deus vai encontrando espaço para agir no
homem, transformando-o segundo a imagem de seu Filho, mudando-lhe o espírito e
o coração e lhe introduzindo na vida divina. Como filho de Deus, o cristão recebeu
o Espírito de seu Filho para ser conduzido por ele, atuar segundo ele e dar
frutos de “amor, alegria, paz, longanimidade, bondade, fidelidade, mansidão e
temperança” (Gl 5,22-23) que lhe são próprios.
O que Cristo opera invisivelmente
mediante o seu Espírito na Igreja, realiza-o em cada cristão visivelmente
também por seu Espírito, mediante a missão de seus apóstolos, pelos diversos
ministérios da comunidade eclesial. A mediação eclesial revela-se
imprescindível não só em geral, mas em concreto para cada fiel. O fato também
de depender da mediação de um outro, que por sua vez, caminha pelo mesmo
caminho de busca de perfeição, implica em uma atitude de humilde submissão, a
exemplo do próprio Jesus, que se fez homem e se submeteu a homens.
A Igreja, ainda que considerando
o AE um meio muito importante no caminho da perfeição, nunca a teve como
elemento imprescindível para a ação do Espírito Santo na vida do cristão, nem
para a resposta dele. Todavia neste como nos outros aspectos da vida do homem,
a dependência de outros é o caminho mais normal e, com probabilidade, o mais
eficaz para avançar com segurança.
As formas de relação
acompanhante-acompanhado
Existem vários níveis de
profundidade na dinâmica do acompanhamento. Assim, serão sucessivamente
distinguidos, sem exagerar o alcance das denominações conservadas, o simples
“diálogo de acompanhamento”, a “pedagogia espiritual”, e enfim, a “paternidade
espiritual” no sentido estrito da palavra.
O diálogo do acompanhamento
representa, sem dúvidas, o caso mais freqüente. Trava-se progressivamente, às
vezes sem que se perceba de verdade. Uma intimidade estabeleceu-se
progressivamente com uma pessoa de nosso grupo, de quem apreciamos certas
qualidades: capacidade de acolhimento, dom de simpatia, experiência, prudência,
espírito de fé. Sentimo-nos à vontade com ela, até mesmo para partilhar essas
coisas que não partilhamos com todo mundo. A freqüência das partilhas é
variável, conforme as idades e as necessidades. Far-se-á espontaneamente mais
importante nos momentos de crise ou de graves decisões a tomar.
A pessoa escolhida poderá ser um
padre, o confessor, uma freira, um companheiro de trabalho, um amigo. Às vezes,
o serviço assim prestado será recíproco. Uma relação como esta é, antes de
tudo, fraterna e amigável, ela se tece e se vive sobre um pé de igualdade.
Estes laços, aparentemente simples, merecem ser tomados a sério, pois, em longo
prazo, podem se tornar profundos. Mas podem variar conforme as necessidades ou
circunstâncias, não sendo duráveis e nem únicos. Vários desses laços podem
coexistir ao mesmo tempo com outras pessoas, não tendo um caráter único e
exclusivo, o que será determinante na relação de paternidade espiritual.
A pedagogia espiritual é um caso
mais específico, porém menos comum. Acontece quando um indivíduo pede para ser
preparado ou formado, e por isso precisa de um “pedagogo”, em vista de um
objetivo bem concreto. Pode ser uma situação delicada em sua vida, uma crise
particularmente dolorosa a atravessar, uma nova etapa no crescimento a encarar,
ou simplesmente a vontade de Deus a discernir na hora de uma decisão
importante.
A paternidade espiritual, enfim,
em um sentido mais estrito da palavra, é o que encontramos entre os irmãos das
Igrejas Orientais. É nela que nós ocidentais pensamos, não sem nostalgia e
idealização, quando nos conscientizamos da necessidade de sermos acompanhados.
Por um lado com razão, pois a paternidade espiritual é uma realidade que sempre
existiu na Igreja; mas é preciso tomar cuidado para não fazer um uso apressado
e inconsiderado de um vocabulário que pode ser marcado de ilusões.
Esta relação existe, mas, como um
carisma, antes de tudo raro e substancialmente inimitável. Ao pai espiritual,
este carisma não vem de sua habilidade ou de sua experiência. Vem de Deus, como
um dom imprevisível e como a revelação de sua filiação divina.
Tal paternidade espiritual
revelar-se-á no interior de relações preexistentes: dois amigos, mestre de
noviços, coordenador de grupo, irmão ou irmã de comunidade, confessor. Mas, ela
não procede desta relação. É de uma outra ordem e sempre gratuita. É por isso
que não a devemos supor ou presumir. É com o tempo e o aprofundamento das
relações que iremos percebendo, iluminados pelo Espírito, que se trata de uma
relação pai-filho espiritual.
A paternidade de Deus verifica-se
de mil maneiras na existência de cada crente, mas não necessariamente sob esta
forma típica e exemplar. Não é preciso, aliás, lamentá-lo, nem procurar
descobrir a todo custo o “pai” ou a “mãe” ainda não encontrados. Muito menos
ser-lhe-ia necessário crer-se investido de um papel parecido em relação a quem
quer que seja. É principalmente aqui que conviria ser lento em crer nesta
relação e espontaneamente reticente em empregar um vocabulário da paternidade
ou da filiação espirituais, o que corresponderá nunca, senão muito
excepcionalmente, à realidade vivida.
Um verdadeiro acompanhamento
pode, aliás, exercer-se de muitas outras maneiras, e não é proibido pensar que
algo deste carisma excepcional está obscuramente presente em toda relação entre
crentes. Somos, talvez, todos chamados a ser um pouco pai e mãe de uma multidão
de irmãos. Sem pretendê-lo e freqüentemente sem que nos demos conta. À luz
dessa graça “paternal”, como uma analogia principal, vários aspectos de nossas
relações fraternas de todos dos dias, mais humildes emais modestas, podem aclarar-se
com uma nova iluminação. Todas comunicam, sem dúvida, algo desta graça que Deus
decidiu conceder-nos através de nossos irmãos e irmãs.
O acompanhado
Diante disso que vimos,
pressupõe-se que aquele que busca o AE tem consciência da necessidade de alguém
que o conduza, ou melhor, que caminhe com ele neste caminho rumo a configuração
de Cristo. Quem assim procede sabe-se protagonista de sua história pessoal e
responsável de suas decisões. Não estará buscando quem o supra na revisão de
sua vida, no exame de sua consciência, na análise de suas motivações e
atitudes, mas quem o acompanhe e oriente em sua reflexão e o ilumine.
Suposta a liberdade e a livre eleição
de quem busca essa ajuda de forma permanente, não meramente ocasional, devem
existir nele, ademais, as seguintes atitudes: sinceridade – O que se está
procurando no AE? É a primeira pergunta que deve formular-se tanto o
acompanhador como o acompanhado. Supõe-se que a pessoa quer verdadeiramente
conhecer-se a si mesma e ser autêntica, que está disposta a buscar lealmente a
vontade de Deus e cumpri-la, que não se contenta com o estilo de vida aceitável
exteriormente, mas espiritualmente medíocre.
A sinceridade para consigo mesmo
e o acompanhante supõe coragem e humildade para reconhecer-se como se é – não
como se quereria ser –, com qualidades e defeitos, sem pretender vangloriar-se
por aquelas nem exagerar a própria pobreza e as próprias limitações. Porém,
precisa também aceitar sem regateios aquilo que possa ser vontade de Deus e
aquilo que pode indicar o acompanhador.
Quem está seguro de si mesmo se
crê justo e refugia-se no cumprimento de algumas normas, dificilmente se
descobrirá pecador, necessitado de conversão ou estimulado a progredir segundo
o Espírito. Facilmente buscará reconhecimento de seus méritos ou o aplauso do
acompanhador.
Confiança – Este é o pressuposto
elementar para a sinceridade e a abertura de coração, mas não se outorga senão
a quem tem a credibilidade. Baseia-se na admiração, no reconhecimento
espiritual do acompanhador, de sua experiência ou sua doutrina, na simpatia que
inspira em conjunto. Isto faz que se trate de alguma coisa de pessoal e
misterioso, sem razões explícitas muitas vezes.
Oferecer a própria intimidade é
pôr-se nas mãos de outra pessoa. Com efeito, ao acompanhador deve-se descobrir
com simplicidade os desejos, dificuldades, critérios, percepções, tentações,
tudo o que seja preciso para discernir com o acompanhado a vontade de Deus
sobre este.
Docilidade – Outra vertente da
confiança é a docilidade, o deixar-se conduzir. O acompanhamento não deve
anular a própria liberdade, mas tampouco deve sub-valorizar a palavra do pai
espiritual. É preciso haver uma disponibilidade para caminhar, pois o
acompanhador não caminhará no meu lugar, apesar de estar caminhando ao meu
lado. O acompanhador me auxiliará a identificar o caminho de salvação que Deus
tem para mim, mas não poderá me fornecer “receitas” prontas e fáceis. Terei que
assumir o caminho que leva à cruz de Cristo.
Escutar – Para que se reconheça
essas pistas, que o acompanhador ajuda a encontrar, a atitude da escuta é
indispensável. São Bento convida o discípulo a inclinar o ouvido do coração
para receber de boa vontade o ensinamento do mestre (cf. Pról RB 1). Muitas
vezes, por nunca ter tido alguém em sua família ou entre os amigos, que o
escutasse, o acompanhado encontra uma grande chance de se manifestar
verbalmente nos encontros de acompanhamento. É claro que falar é muito
importante, principalmente por parte do acompanhado, mas isso não basta; os
encontros não podem servir apenas para “desabafar”. É preciso ouvir; desejar
ser conduzido; estar disposto a aprender; ser discípulo. Isso não quer dizer,
mais uma vez, que se deva esperar respostas prontas ou “receitas” da parte do acompanhador, mas sim,
estar disposto a levar em consideração seus apontamentos e interpelações, para
que, juntos, discirnam a vontade de Deus.
As respostas, na maior parte das
vezes, terão que partir do acompanhado.
O acompanhador
“O Espírito Santo dá a certos
fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a
oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são
verdadeiros ministros da tradição viva da oração.”(CigC 2690)
O AE ou a paternidade/maternidade
espiritual é um ministério eclesial, é um carisma. Esta paternidade/maternidade
está em relação com a paternidade/maternidade de Deus e não tem nada haver com
paternalismo ou substituição afetiva. Este ministério está a serviço da Igreja,
pois a vida espiritual é um bem comum da comunidade cristã e não algo
individualista. O pai espiritual está servindo a um membro da comunidade e não
um indivíduo isolado, por quem ele tem uma certa simpatia ou afinidade.
O acompanhador , como ministro de
Deus e servo da Igreja, é antes de tudo, discípulo de Jesus Cristo, que nunca
chega a categoria de mestre. Não é chamado para ser simplesmente um transmissor
de teorias ou instruções. Antes, deve estar identificado interiormente com o
Mestre, com seus valores e ideais; deve percorrer o caminho da cruz com ele e
deixar-se guiar ele mesmo pelo Espírito Santo. É testemunha do Ressuscitado, ou
seja, é aquele que fez experiência do mistério pascal de Jesus Cristo em sua própria
vida.
Sua condição de instrumento de
Deus lhe exige a humildade. Não poderá, com efeito, impor suas idéias ou
preferências pessoais como critério de atuação para o acompanhado. Pelo
contrário, sua atividade deve ser a de pôr-se à escuta de Deus para se tornar
ele mesmo disponível à ação divina. Estar à escuta de Deus é um modo de
abandonar-se a ele e deixar que o Espírito atue mediante a pessoa mesma.
A humildade indicada deve levar o
acompanhador igualmente a expressar com simplicidade seu ponto de vista ou
calar com paciência o que não vê com clareza que seja a vontade de Deus. É um
modo de reconhecer sua própria pobreza e não suplanta a iniciativa ou a ação de
Deus. Em última análise, Deus serve-se das pessoas, com seus talentos e também
suas limitações.
Com isso, podemos deduzir, que
para assumir este papel de pai/mãe espiritual, existem alguns requisitos ou
disposições. Quem aceita a tarefa de acompanhar alguém na caminhada para a
maturidade e a liberdade interior deve inspirar-se na concepção do homem
positivo e aberto ao transcendente. Além disso, é necessário que conheça e
aceite a si mesmo e que tenha alcançado nível normal de maturidade afetiva, de
modo a não viver a relação de ajuda numa atitude centrada em si mesmo. Além
dessas qualidades, o pai/mãe espiritual precisa cultivar algumas disposições
fundamentais e indispensáveis:
Experiência espiritual – deve ser
um homem/mulher espiritual, ou seja, com experiência de Deus em sua vida. Não
se trata de um ofício qualquer, nem de que qualquer um possa desempenha-lo.
Somente quem se sente chamado e capacitado por Deus poderá exercer esse
ministério. Mais que o saber fazer importa o ser mesmo do acompanhador.
Preparação específica – o fato de
ser dom não implica que quem o possui possa ficar de braços cruzados confiando
no próprio carisma. Isso seria imprudente e revelaria que o acompanhador não
avalia corretamente sua missão, não se interessando por adquirir uma preparação
adequada. É necessário que se tenha um bom conhecimento da teologia, do magistério,
de espiritualidade, além
de possuir um certo conhecimento
de psicologia e das técnicas de diálogo pastoral convenientes para as
entrevistas e a relação humana em geral.
Nenhum desses conhecimentos
suprirá o dom do Espírito Santo, o dom da prudência e do discernimento
especialmente, nem sua própria experiência espiritual, que é o que, em última
análise, dá a medida de sua capacidade como acompanhador espiritual.
É preciso saber em que consiste o
seu ministério, para tanto ele quanto o acompanhado, não se contentem em manter
uma conversação distante do objetivo do AE. O acompanhador terá a
responsabilidade de mostrar ao acompanhado as bases da relação e dos encontros
em função do que se pretende, sem, contudo, ferir-lhe a liberdade.
Discrição – ainda que não entre
no sigilo sacramental, a discrição e o segredo é algo suposto pela própria
natureza do AE. A ausência desta condição destruiria o clima de confiança e
desrespeitaria o universo interior daquele que abre o seu coração. Seria uma
traição.
Autenticidade – tem liberdade em
relação ao seu próprio mundo interior, aceitando-o com suas características
positivas e negativas, e de apresentar-se aos outros com o rosto descoberto,
evitando esconder-se atrás de máscaras. Está reconciliado ou pelo menos em um bom
nível de reconciliação consigo mesmo.
Aceitação incondicional – é a
atitude de respeito pelo outro, baseada numa visão positiva do homem em geral.
A formação moralista, a atitude egocêntrica (eu sou a medida) e o papel de
mestre e juiz atribuído ao pai espiritual tornam muito difícil a acolhida. Essa
acolhida é essencial, pois gera no acompanhado o encorajamento para entrar no
próprio mundo interior, para conhecê-lo e aceitá-lo; o início do processo de
melhoria da auto-imagem; a superação de estados de desânimo, derrota,
insegurança ou ansiedade; a conquista gradual de autonomia sadia pessoal; a
força para superar os momentos críticos, na caminhada rumo a perfeição.
Empatia – é o que permite
compreender o outro em um nível mais profundo; significa “entrar na pele do
outro”, participando da sua experiência de sofrimento ou dificuldade. Esse
esforço muitas vezes é impedido por parte do acompanhador por sua posição
egocêntrica (dá exemplos a partir de si mesmo), pelo dirigismo (propor
perguntas e respostas, soluções simplistas) ou pela tendência de julgar
(condenação).
Capacidade de escutar – diria que
esta é, talvez, a mais importante das atitudes ou qualidades de um bom
acompanhador espiritual. Na maior parte dos casos, o acompanhado precisa apenas
ser ouvido; saber-se ouvido; perceber que existe alguém que o ouve
gratuitamente, sem exigências, cobranças ou expectativas. Sobres este ponto,
especificamente, gostaria de aprofunda-lo a seguir.
A condição de escutar
Como vimos, a capacidade de
escutar é tão importante para o acompanhador como para o acompanhado. Nesta
relação entre estas duas pessoas, a escuta será o elemento de união, o lugar de
encontro.
A escuta é esta atitude de
respeito e reverência para com o outro, de distância e de proximidade ao mesmo
tempo, sem ferir a individualidade, o segredo ou a intimidade não revelada. É
ainda atitude de humildade, pois nesta relação comum, ambos estão aí para serem
formados pelo grande acompanhador e mestre, Jesus Cristo, que emerge desse
encontro no Espírito. Ouve-se na realidade o próprio Cristo neste encontro; o
Verbo se encarna entre nós na pessoa do outro.
Se o acompanhador não está
disposto a escutar, mas somente quer falar ou “ensinar”, não há relação de
troca. A relação anda em mão única. Assim também, se o acompanhado não se
coloca em atitude de escuta atenta para distinguir a voz suave do Espírito Santo,
que o conduzirá à plenitude, seu objetivo de procurar um acompanhador é vão.
Ele não precisa de mestre, pois é seu próprio mestre.
Há uma queixa freqüente entre os
cristãos: “Não encontro pai espiritual”; ou então: “Não há mais pais
espirituais na Igreja hoje”. Não que algo de objetivo não corresponda a esta
queixa. Existem hoje, sem dúvida, um clima e certas condições que não facilitam
mais a eclosão de uma tal relação. Subsiste, contudo, o fato de que o
pressuposto essencial de um acompanhamento estará sempre do lado daquele que
procura sinceramente, e que não lhe será possível não encontrar, se ele próprio
está pronto. O provérbio da sabedoria hindu verifica-se aqui: “Quando o
discípulo está pronto, o mestre aparece”. Encontramos uma afirmação análoga em
um apoftegma célebre: “Um pai do deserto pergunta a outro pai: Por que os
monges de hoje não têm mais palavras a dar? (ou seja: por que não existem mais
bons pais espirituais?) – Resposta: Porque os filhos não sabem mais escutar.” A
qualidade da busca e da escuta acaba por suscitar o acompanhante. Certos
autores antigos dirão: a qualidade da fé. É a resposta de Doroteu de Gaza a
monges que se queixavam de não encontrar o pai espiritual tão longamente
procurado, capaz de revelar-lhes a vontade de Deus: basta, respondeu ele,
buscar verdadeiramente e humildemente a vontade de Deus. Após o que,
poderíamos, a rigor, dirigir-vos a quem quer que fosse, mesmo a uma criancinha.
Pois, Deus colocaria suas própria palavras na boca da criancinha, para atender
à fé daquele que busca sinceramente. Por outro lado, mesmo que nos dirigíssemos
a um profeta, mas sem uma fé suficiente, Deus colocaria, antes, um espírito de
erro na boca do profeta, para confundir aquele que não está realmente disposto
a escutar. Ainda uma vez, não é o saber, nem a experiência, nem a competência
do acompanhante que contam, mas, bem antes, a disponibilidade profunda daquele
que busca.
Escutar é muito mais que o mero
ouvir; no contexto do acompanhamento e diálogo espiritual, é mais importante
que falar; não é em vão que temos dois ouvidos e uma boca somente: devemos
escutar duas vezes mais do que falamos. Para isso devemos nos exercitar. Assim
como se faz necessária uma reabilitação de um membro que ficou muito tempo
imobilizado, também precisamos reabilitar os sentidos que ficaram esquecidos ou
inertes por muito tempo. O homem, afastado de Deus pelo pecado, deixou de
escutar. Ficou surdo à voz Daquele que chama o seu nome, escondeu-se desse
chamado atrás das moitas. Escondeu-se dessa voz que lhe falava ao coração,
através da criação, dos acontecimentos e do próximo.
Escutar é o que a espiritualidade
beneditina ensina numa cultura que vê, que fala, mas muito raramente escuta.
Nossa espiritualidade remete à escuta de quatro realidades, como remédio para
nossa “surdez espiritual”: os Evangelhos, a Regra, um ao outro, e ao mundo que
nos cerca. Muitos de nós ouvimos com facilidade uma ou duas dessas realidades,
mas dificilmente ouvimos as quatro. Ouvimos as necessidades dos pobres, mas nos
esquecemos da leitura do Evangelho. Procuramos aconselhamento espiritual, mas
ignoramos ou negligenciamos as intuições das pessoas com as quais vivemos.
Preferimos ouvir-nos a nós mesmos a ouvir corações mais sábios por medo de que
possam nos levar para além de nós mesmos. A espiritualidade beneditina requer a
combinação de tudo isso.
No fundo, estas quatro realidades
são simplesmente quatro dimensões de uma única e mesma realidade: a Palavra de
Deus. A Palavra de Deus que se manifesta ou se faz ouvir através das Escrituras,
da Tradição, de nossos irmãos, da criação e da história.
É desse contato íntimo com a
Palavra de Deus, que na tradição monástica chamamos de Lectio Divina, que
descobriremos a maravilha de escutar. É daí que receberemos a sabedoria, a
humildade, a docilidade e a clareza da vontade de Deus em nossa história de
salvação pessoal. Não há melhor escola de discipulado e de pastoreio que a
Lectio Divina, visto que ela coloca nossas vidas à luz da Palavra, iluminando
nossos corações e nos transmitindo a mentalidade de Cristo, para enxergarmos o
mundo e as pessoas com os olhos de Cristo, julgarmos como Cristo, amarmos como
Cristo. A Lectio Divina nos forma neste processo de ver a vida e as pessoas
como elas verdadeiramente são. É sobre esta prática milenar no seio da Igreja,
herdada por nossos pais do judaísmo, que prosseguiremos tratando.
Bibliografia
OCCHIALINI, U. Direção Espiritual – in Dic. De Mística ed.
Loyola/ed.Paulus VALDERRÁBANO, J.F. Direção Espiritual – in Dic. Teológico da
Vida Consagrada ed. Paulus LOUF, A. Mais Pode a Graça – ed. Santuário
SZENTMÁRTONI, M. Introdução à Teologia Pastoral ed. Loyola CHITTISTER, J.D.
Sabedoria que Brota do Cotidiano – viver a Regra de S.Bento hoje ed. Subiaco
VVAA Lectio Divina ontem e hoje ed. Subiaco COLOMBÁS, G.M. Diálogo com Deus ed.
Paulus
Bibliografia de apoio CURY, A. Coleção “Análise da
Inteligência de Cristo” ed. Academia de Inteligência POWELL, J./BRADY, L.
Arrancar Máscaras e Abandonar Papéis ed. Loyola GRÜN, A. O céu começa em você
ed. Vozes ------------- As exigências do silêncio ed. Vozes -------------
Perdoa a ti mesmo ed. Vozes ------------- O ser fragmentado ed. Idéias e Letras
© Mosteiro da Transfiguração
www.transfiguracao.com.br

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