domingo, 26 de agosto de 2012

Obediência




Por um monge do Mosteiro da Transfiguração - Santa Rosa - RS – Brasil

“Pela  profissão da obediência, os religiosos oferecem a Deus, como sacrifício de si mesmos, a plena entrega de sua vontade e por isso  se unem mais constante e plenamente à vontade salvífica de Deus.”(Perfectae Caritatis número. 14) 

A prática das virtudes e o desejo da santidade são, nesta vida, preparação e desenvolvimento da vida eterna. Para o monge, constitui isto, o conteúdo de sua vocação, pois este é convidado a viver já aqui na terra as realidades celestes.

Para a realização desta tão sublime vocação, S. Bento estabelece o recinto do mosteiro, como lugar propício ao seu desenvolvimento, é a chamada “escola do serviço do Senhor”. Nesta escola, porém, a perfeição não é buscada como algo particular do monge, mas, comum a todos os membros desta comunidade que poderá chamar-se santa, já que somará mais que santos individualmente. A comunidade é formada pelo Abade e pelos irmãos, a quem Bento dedica os capítulos 2 e 3 da Regra. É na obediência que encontramos o ponto fundamental de união entre essas duas partes, é ela o elemento vital que une todos os membros desse corpo único que é o mosteiro. É pela obediência também, que se viabiliza a prática da tão importante virtude da estabilidade, destacada por S. Bento no capítulo IV de sua regra, quando indica os instrumentos das boas obra, pois é por meio da autoridade que se evita tudo que perturbe a comunidade, ao passo que se realiza tudo que possa favorecê-la; se não há uma relação harmônica de obediência entre a cabeça e os membros do corpo é impossível haver comunidade e comunhão. Podemos dizer que a obediência é o que caracteriza a vida do monge cenobita. É ela a alma do seu compromisso cristão. Descrevendo os quatro gêneros de monges – anacoretas, sarabaítas, giróvagos e cenobitas – no capítulo I de sua Regra, São Bento caracteriza o “poderosíssimo gênero dos cenobitas” como “aquele que milita sob uma regra e um abade”(RB1,2), ou seja que vive sob a obediência. 

Para S. Bento, a obediência não é apenas a aceitação e o cumprimento das prescrições das constituições e dos superiores pela obrigação, nem confere à ela o mero valor funcional, sendo  necessário para o bom funcionamento da comunidade apenas. 

Obediência em S. Bento tem um sentido mais dinâmico e amplo; trás uma noção teológica e cristológica, uma noção que inclui tudo o que a S. Escritura expressa com o complexo conceito de  obediência. Como tudo na vida do monge, a obediência, que é simultaneamente amor e serviço aos  irmãos, é um sinal escatológico, isto é, tem uma referência à dimensão de eternidade da vida humana. Pelo voto de obediência, o monge coloca-se de maneira mais eficaz no mistério da vontade do Pai, aceito e vivido por Jesus. Através de seu voto, o monge entra diretamente no caminho escolhido por Cristo, e participa com Ele da missão de levar o mundo a seu verdadeiro destino, o Pai. Para compreender-se o sentido real da obediência que o monge professa, segundo Dom André Louf, é preciso fazer-se a distinção entre a obediência política e a obediência evangélica na comunidade monástica. Segundo ele, ainda hoje, na espiritualidade corrente, há uma confusão entre essas duas formas de obediência. A obediência política consiste em que os membros de uma sociedade prestem obediência 

a um chefe, em vista do bem comum e este, por sua vez, é obrigado a dar ordens a serviço do bem comum também. A obediência evangélica está ligada ao sentido da procura incessante da vontade de Deus, à escuta dessa vontade e estar disponível à ela, entregando-se ao seguimento de Cristo até o Pai, passando pela morte. É claro que as duas são importantes e necessárias no mosteiro, porém, a primeira está dentro da dimensão da segunda. Bento não se esquece da organização material da Casa de Deus, no entanto, realça também nelas a realidade sobrenatural; “veja todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos sagrados do altar”(RB.31,10). 

“O PRIMEIRO GRAU DA HUMILDADE É A OBEDIÊNCIA SEM DEMORA”

OBEDIÊNCIA – HUMILDADE
A obediência não é, pois, algo que subsista em si mesmo, que seja absoluto; é, antes, a manifestação de um valor espiritual maior, mais geral, a humildade. É o princípio pressuposto da humildade. Sem o  sentimento de obediência para com Deus e para com seu representante humano no mosteiro, em quem o monge, a cada ordem, ouve a voz do próprio Deus, não há humildade. Esta, porém, é o fundamento absolutamente necessário de todo o ser e agir do cristão, pois humildade é  o mesmo que verdade, reconhecimento da verdadeira posição do homem perante Deus, da criatura diante do Criador. Onde falta a humildade, reina a exaltação do próprio eu, o orgulho, a mentira. A verdade consiste na posição justa dentro da ordem divina.  Assim, tudo que é verdadeiro tem suas raízes na humildade da qual a obediência é a primeira manifestação. Onde não reina a humildade, reina o orgulho, como aconteceu no Éden.

OBEDIÊNCIA – “PRIMEIRO DEGRAU”

É em sua ligação com a humildade que a obediência adquire sua dimensão maior e se torna o “primeiro degrau” para aquele que deseja trilhar a via de Cristo, segundo Cassiano, o Mestre e por fim S. Bento. É o ponto de partida da humildade, que é verdadeiramente a via estreita e difícil que o monge toma para chegar ao Pai. O Mestre vai apresentar a obediência praticada pelos cenobitas como a “via estreita”, que chega até a imitação do martírio. Quando seguimos a história da obediência religiosa, em seu início  – sécs. II e III – não se fala de obediência, mas em seguir o Cristo em sua humilhação.

OBEDIÊNCIA – CRISTO – MONGE

O monge imita o Cristo, que assumindo a condição humana, faz da obediência um ato ininterrupto de obediência ao Pai, sendo o seu primeiro ato como homem o de pôr-se à sua disposição; “eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade”(Hb.10,7). Cristo obedeceu ao Pai em tudo até à morte, e morte de cruz (cf. Fl). Sua obediência vai até o momento em que diz: “tudo está consumado” (Jo.19,30). É o momento de retornar para o Pai.“Com o poder do Espírito Santo que recebe no Batismo e na Confirmação, os cristãos exercem uma obediência que não é apenas sociológica, mas verdadeiramente carismática, isto é, espiritual, segundo a graça e a missão que cada qual recebeu do Senhor. Por meio dessa obediência, especificamente cristã participa-se da obediência de Cristo ao Pai, com toda comunhão e gozo filal que implica, e também com a dor e sofrimento que a obediência implica para Cristo (cf.Hb.5,8). O cristão entra, assim, explícita e publicamente no mistério da redenção do gênero humano. (Augustin Roberts, Vida Monástica-elementos básicos, p.98)

Obedecer ao Pai foi para Jesus, uma alegria e ao mesmo temo foi “sua paixão”. Cumprir a vontade Daquele que o enviou foi seu alimento (Jo.4,34), sua vida. Os evangelistas no-lo apresentam com freqüência vibrando de júbilo e de gratidão porque faz ou vê fazerem a vontade de Deus. Cumprir essa vontade foi, no entanto, para ele, fonte inesgotável de sofrimentos: sua paixão, o cálice amargo que o Pai pôs em seus lábios para que o tomasse até a última gota. “Foi traspassado por causa de nossas transgressões, foi esmagado por nossas iniqüidades...”(Is.53,5). Convém ao monge e à todos os cristãos em geral, ter muito presente essa dupla face da obediência de Cristo, pois ela se perpetua na obediência da Igreja e, portanto, na obediência do cristão.Tanto a autoridade como a obediência eclesiais, são estabelecidas e mantidas continuamente por Cristo. Têm um aspecto evidente de comum serviço a Cristo, cabeça e pastor da Igreja, e de comunhão redentora com Deus e com os irmãos em Cristo.

OBEDIÊNCIA SEM DEMORA

Como já dissemos, a obediência pela obediência, tem o seu valor, mas não abrange toda a dimensão da obediência de Cristo e, por conseguinte, a obediência monástica, não culmina na força da explosão pascal. S.Bento diz: “obediência sem demora”. A demora é a intromissão da própria vontade, condenada para o monge, intromissão que se coloca entre a ordem e a execução. A demora abre as portas para os juízos e críticas pessoais e para a, também condenada, murmuração. O ato de obediência, por fim, torna-se uma decisão pessoal. Pode-se ter cumprido a ordem, se, porém, por descontentamento se nega o consentimento interior, revoltando-se por gestos ou palavras, a ação externa perde todo o valor sobrenatural. Os sentimentos do coração murmurador, os quais não escapam ao olhar de Deus, não permitem que o monge receba a graça e impõe-lhe o castigo do juízo divino, a não ser que o culpado busque com arrependimento o perdão.

Esta maneira imediata de obedecer é a atitude de quem nada tem por mais caro que o Cristo. Longe de ser um sentimento indigno, de escravo, tal obediência é prova e testemunho de um amor a Cristo, que tudo supera. Quem, pois, cumpre a obediência levada pelo amor a Cristo, realiza inteiramente vocação de monge.


VONTADE PRÓPRIA

São Bento, já no Prólogo da Regra, exorta aqueles que desejam militar sob o Cristo Senhor, que a renuncia às próprias vontades e a obediência são condições impressindíveis. Percebe-se que a obediência está altamente vinculada a este fator da renuncia à vontade própria, sem ela é impossível obedecer-se. Mais adiante, no cap. I e no cap. VII, Bento caracterísa a vontade própria como um jugo e um vício de escravidão (cf.1,11; 7,12), quando fala dos monges giróvagos (que vagueiam de mosteiro em mosteiro).
O voto de obediência consiste justamente em não fazer a própria vontade, mas a do Pai. A imitação ao Cristo em sua obediência, tem o seu enfoque central neste ponto  – “não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou”. Claro que a obediência não exclui a prudência humana, serve-se dela muitíssimas vezes. Mas a exclui como critério último para conhecer ou cumprir a vontade salvífica do Pai. Obedece-se porque quer-se obedecer, é um compromisso próprio. No entanto, é preciso que se faça isso não como uma obrigação por se ter comprometido, mas com amor, com o coração aberto –“é preciso que o irmão obedeça com bom ânimo, pois o Senhor ama ao que dá com alegria.”

Mas porque que é tão difícil par o ser humano desapegar-se de seus critério, pensamentos e avaliações próprias? Com o pecado original, uma das áreas que foram mais atingidas foi a vontade do homem. O que caracteriza o pecado original é a propensão a fazer nossa própria vontade contra a vontade de Deus, a tendência a seguir nossos próprios impulsos do momento, ainda que nos levem ao mal maior. É a inclinação a julgar como bom o que atrai nosso amor próprio. Mas, o caminho da conversão é o caminho da renúncia a si mesmo para amar a Deus mais que a nós mesmos. Finalmente, esta renuncia consiste simplesmente em cumprir, em toda a sua plenitude o primeiro Mandamento do Senhor: “amar ao Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma e com todas as forças.”(Dt.; RB.4,1)

Só quem renuncia à sua própria vontade para colaborar com outros no Reino de Deus pode sobreviver na batalha contra os vícios, os maus pensamentos e as fantasias humanas.

COMO CRESCER NA OBEDIÊNCIA?
Eis aqui alguns meios para auxiliar:

Antes de tudo abraçar a obediência como um  trabalho. Voltamos a Deus “pelo esforço da obediência”, segundo o prólogo da Regra. É árdua, duradoura e exige sacrifício. Às vezes ser torna mais difícil com o correr dos anos. Se muitos religiosos não crescem na obediência, é porque caem na rotina. Presumem-se obedientes quando, em realidade, nunca se submeteram ao superior cem por cento, corpo e alma. Dado nosso espírito moderno de independência, a obediência poderá ser tomada levianamente.“O abade Hiperíquio dizia: O oficio do monge é obedecer. Se o cumpre, ser-lhe-á concedido tudo o que pede na oração, e se porá de pé com confiança diante de Cristo crucificado. Porque o Senhor mesmo chegou assim à sua Cruz, feito obediente até à morte.”

-  Cultivar a vida de fé. É o mais importante. Nossa obediência não pode desenvolver-se sem espírito de fé.  Ao crescer a fé, cresce a obediência e vice-versa. O que não é fiel na obediência corre o risco de perder pouco a pouco sua fé. A pedra angular da obediência monástica á a convicção de que o que o superior determina é o que Deus quer no momento atual. “Aquele que vos ouve, a mim ouve”(Lc.10,16; RB.5,6,15). 
Com isto, não se elimina de modo algum, o diálogo, mas se indica o necessário espírito interior tanto do diálogo como da obediência.É preciso cultivar essas convicções da fé com leitura e meditação sobre o mistério da Igreja, a comunhão hierárquica como sacramento de comunhão com Deus. Pensemos na obediência de Jesus. Rezemos ardentemente pedindo a graça de crescer na obediência. Primeiro obedecemos a Jesus que fala pela boca de outros. Depois, descobrimos que ele obedece em nós e nós com ele. Tenhamos grande desejo de crescer assim e obedecer com perfeição. Deus o quer. É a condição necessária para quebrar a dura casca de nossa vontade própria e tocar o solo fértil de nossa identidade mais profunda em sua abertura para Deus. Foi justamente assim que Cristo se humilhou por nós até aceitar por obediência a morte e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou (cf.Fl.2,8-9).

APÊNDICE

Como é habitual na RB., a doutrina e as normas sobre a obediência têm, como ponte de referência e fundamento, algum texto chave da Sagrada Escritura. Os que de maneira mais constante e clara indica, seu pensamento nesta matéria cremos ser os seguintes:

a)      “Não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou” (Jo. 6,38; RB.5,13;7,32)   A renúncia à própria vontade, condição prévia para assemelhar-se a Cristo obediente, é um dos princípios  básicos da obediência beneditina.b)     “Quem vos ouve a mim ouve”(Lc.10,16; RB.5,6.15). A Regra e o Abade  constituem-se para o monge como sacramentos da vontade de Deus. 
Diante da regra e do Abade, a atitude do monge é, pois, uma atitude de fé.
c)     “Fez-se obediente até a morte” (Fl.2,8; RB.7,34). A participação do cristão e do cristão-monge no mistério da kenosis de Cristo deverá necessariamente ter também, numa obediência crucificante, seu expoente máximo.

d)     “Deus ama aquele que dá com alegria”(2Cor.9,7; RB.5,16)
A obediência do monge, enquanto prolongamento da obediência de Cristo, é também cruz  e alegria ao mesmo tempo. Deve ela ser fonte de alegria e para isso é preciso que seja amada, e para ser amada, que seja aceita livremente, sem coação ou imposição de qualquer  espécie.
       
BIBLIOGRAFIA

       *REGRA DE S. BENTO
*HERWEGEN, D. Idelfonso,osb (Abade de Maria Laach)
  SENTIDO E ESPÍRITO DA RB – Col. “Monástica”,Vol.4  pp.108ss.
Lumen Christi – Rio de Janeiro-RJ – 1953
*ROBERTS, D. Augustin
  VIDA MONÁSTICA-Elementos Básicos  pp. 97ss.
L.C. – RJ. – 1980
*PASCUAL, Augusto,osb (Abadia de Leyre – Espanha)
  O COMPROMISSO CRISTÃO DO MONGE
CIMBRA – 1994
*texto “a OBEDIÊNCIA MONÁSTICA”

domingo, 19 de agosto de 2012

O acompanhamento espiritual na vida cristã



Trabalho realizado por D. Paulo Domiciano, osb novembro de 2005


Com este trabalho pretendo expor, de maneira bastante sucinta, o tema do acompanhamento espiritual, também conhecido como direção espiritual, como parte integrante na dinâmica do crescimento na vida espiritual.

Todo cristão, pelo fato de o ser, é chamado à plenitude da vida cristã (LG 5). Tal plenitude é a realização da vocação batismal à santidade, entendida como comunhão com Deus e com os homens, na caridade. Para a concretização de tal vocação tomamos um “caminho”, que por sua vez, não se percorre sozinho, mas onde outros, que já o trilharam, poderão nos auxiliar.
Pretendo, portanto, apresentar os elementos básicos desse processo de desenvolvimento, sua função no crescimento espiritual e humano, as disposições necessárias para aquele que deseja ser acompanhado e as de quem acompanha.

O que é acompanhamento espiritual?

É chamado “espiritual” por estar relacionado às realidades interiores da pessoa. Prefiro o termo “acompanhamento” a “direção”, visto que “direção”, suscita em muitos, por diversos razões, a idéia de um “dirigismo”, ou seja, de autoritarismo, repressão ou imposição em relação à pessoa e a sua liberdade. Quando na realidade, a direção espiritual refere-se ao guiar pessoal e íntimo da pessoa, a uma relação estável entre as pessoas, uma das quais recebe da outra ajuda que a ilumina, sustém e acompanha no discernimento e realização da vontade de Deus, para progredir na santidade. Não se trata de anular a pessoa do dirigido ou sua autonomia, nem estabelecer relações de dependência viciosa em ambas as partes, pois de modo algum se pode suprir o indivíduo naquilo que deve ser resposta pessoal ao chamado pessoal de Deus. Portanto, expressões como “acompanhamento espiritual”, “orientação espiritual” etc, pretendem não substituir o termos “direção”, mas ressaltar as dimensões mais amplas e talvez esquecidas da verdadeira e tradicional direção espiritual.

O acompanhamento espiritual (AE) é a ajuda oferecida por alguém com experiência a um fiel que caminha para a plenitude da vida em Cristo e no Espírito. Não se trata do trabalho pastoral voltado para toda a comunidade cristã, mas daquele prestado a um de seus membros, chamado, junto com os outros a ser perfeito “como o Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48).

Na caminhada para Deus há o concurso de fatores espirituais e humanos. O AE visa a abrir cada vez mais o espírito à ação do Espírito Santo e ativar os recursos psicológicos, para engajá-los no esforço consciente e motivado rumo ao amadurecimento humano e espiritual de toda a pessoa.

O trabalho que se desenvolve sobre o plano humano e psicológico é considerado hoje como premissa indispensável para introduzir de modo coerente e eficaz os fatores sobrenaturais: a fé, a graça, os valores, a oração, os meios propostos pela ascética etc., que constituem o dinamismo válido e necessário no esforço de conversão e de perfeição. Tal perspectiva tem suas bases firmadas na teologia bíblica, onde o homem criado por Deus –corpo, alma e espírito – é um ser único e indivisível. Por isso, é inútil buscar apenas um aperfeiçoamento espiritual, como se isso fosse possível, esquecendo-se do todo. Só teremos sucesso em nosso empreendimento de conversão rumo à perfeição se nos conscientizarmos da necessidade de voltarmos os olhos para cada uma das dimensões de que somos constituídos de uma maneira global e totalizante. “Que eles sejam UM” ou UNOS (cf. Jo17).

No entanto, não devemos confundir AE com terapia psicanalítica. O acompanhador deve conhecer o melhor possível os mecanismos psicológicos mais comuns e as características comportamentais, mas o objeto do AE não é simplesmente ajudar a conseguir uma personalidade sã, estável e madura, mas pôr o acompanhado em condições de discernir a vontade de Deus sobre si mesmo e ajuda-lo a levá-la a cabo. É verdade que sem personalidade madura não se chagará à religiosidade adulta, à fé vivida com liberdade e alegria: quanto mais madura é a pessoa, mais clara e conscientemente pode viver sua vocação; porém também é verdade que quanto maior for a fé, mais forças ter-se-á para superar as deficiências próprias e as dos outros. Por isso, para que haja crescimento, é preciso que se promova ao mesmo tempo o desenvolvimento harmônico de toda a pessoa.

Razão do Acompanhamento Espiritual

Por saber-nos incompletos e imperfeitos buscamos a conversão, ou seja, nossa configuração ao modelo perfeito, o ícone do Pai, Jesus Cristo. Mesmo vivendo em Cristo e sendo movido pelo Espírito, graças ao batismo, continua-se sendo pecador. Vivendo entre esta dupla realidade, o cristão, ao mesmo tempo, sabe-se forte em Cristo, mas fraco em si mesmo.

Na vida cristã vivemos entre tensões, múltiplas provas e quedas do dia-a-dia, que não são estéreis, mas nos conduzem à fé purificada, nos conduzem a uma progressiva sensibilidade espiritual, a docilidade ao Espírito Santo. Elas nos revelam nossa verdadeira condição, nossa necessidade de Deus. Deus vai encontrando espaço para agir no homem, transformando-o segundo a imagem de seu Filho, mudando-lhe o espírito e o coração e lhe introduzindo na vida divina. Como filho de Deus, o cristão recebeu o Espírito de seu Filho para ser conduzido por ele, atuar segundo ele e dar frutos de “amor, alegria, paz, longanimidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança” (Gl 5,22-23) que lhe são próprios.

O que Cristo opera invisivelmente mediante o seu Espírito na Igreja, realiza-o em cada cristão visivelmente também por seu Espírito, mediante a missão de seus apóstolos, pelos diversos ministérios da comunidade eclesial. A mediação eclesial revela-se imprescindível não só em geral, mas em concreto para cada fiel. O fato também de depender da mediação de um outro, que por sua vez, caminha pelo mesmo caminho de busca de perfeição, implica em uma atitude de humilde submissão, a exemplo do próprio Jesus, que se fez homem e se submeteu a homens.

A Igreja, ainda que considerando o AE um meio muito importante no caminho da perfeição, nunca a teve como elemento imprescindível para a ação do Espírito Santo na vida do cristão, nem para a resposta dele. Todavia neste como nos outros aspectos da vida do homem, a dependência de outros é o caminho mais normal e, com probabilidade, o mais eficaz para avançar com segurança.

As formas de relação acompanhante-acompanhado

Existem vários níveis de profundidade na dinâmica do acompanhamento. Assim, serão sucessivamente distinguidos, sem exagerar o alcance das denominações conservadas, o simples “diálogo de acompanhamento”, a “pedagogia espiritual”, e enfim, a “paternidade espiritual” no sentido estrito da palavra.
O diálogo do acompanhamento representa, sem dúvidas, o caso mais freqüente. Trava-se progressivamente, às vezes sem que se perceba de verdade. Uma intimidade estabeleceu-se progressivamente com uma pessoa de nosso grupo, de quem apreciamos certas qualidades: capacidade de acolhimento, dom de simpatia, experiência, prudência, espírito de fé. Sentimo-nos à vontade com ela, até mesmo para partilhar essas coisas que não partilhamos com todo mundo. A freqüência das partilhas é variável, conforme as idades e as necessidades. Far-se-á espontaneamente mais importante nos momentos de crise ou de graves decisões a tomar.

A pessoa escolhida poderá ser um padre, o confessor, uma freira, um companheiro de trabalho, um amigo. Às vezes, o serviço assim prestado será recíproco. Uma relação como esta é, antes de tudo, fraterna e amigável, ela se tece e se vive sobre um pé de igualdade. Estes laços, aparentemente simples, merecem ser tomados a sério, pois, em longo prazo, podem se tornar profundos. Mas podem variar conforme as necessidades ou circunstâncias, não sendo duráveis e nem únicos. Vários desses laços podem coexistir ao mesmo tempo com outras pessoas, não tendo um caráter único e exclusivo, o que será determinante na relação de paternidade espiritual.

A pedagogia espiritual é um caso mais específico, porém menos comum. Acontece quando um indivíduo pede para ser preparado ou formado, e por isso precisa de um “pedagogo”, em vista de um objetivo bem concreto. Pode ser uma situação delicada em sua vida, uma crise particularmente dolorosa a atravessar, uma nova etapa no crescimento a encarar, ou simplesmente a vontade de Deus a discernir na hora de uma decisão importante.

A paternidade espiritual, enfim, em um sentido mais estrito da palavra, é o que encontramos entre os irmãos das Igrejas Orientais. É nela que nós ocidentais pensamos, não sem nostalgia e idealização, quando nos conscientizamos da necessidade de sermos acompanhados. Por um lado com razão, pois a paternidade espiritual é uma realidade que sempre existiu na Igreja; mas é preciso tomar cuidado para não fazer um uso apressado e inconsiderado de um vocabulário que pode ser marcado de ilusões.

Esta relação existe, mas, como um carisma, antes de tudo raro e substancialmente inimitável. Ao pai espiritual, este carisma não vem de sua habilidade ou de sua experiência. Vem de Deus, como um dom imprevisível e como a revelação de sua filiação divina.

Tal paternidade espiritual revelar-se-á no interior de relações preexistentes: dois amigos, mestre de noviços, coordenador de grupo, irmão ou irmã de comunidade, confessor. Mas, ela não procede desta relação. É de uma outra ordem e sempre gratuita. É por isso que não a devemos supor ou presumir. É com o tempo e o aprofundamento das relações que iremos percebendo, iluminados pelo Espírito, que se trata de uma relação pai-filho espiritual.

A paternidade de Deus verifica-se de mil maneiras na existência de cada crente, mas não necessariamente sob esta forma típica e exemplar. Não é preciso, aliás, lamentá-lo, nem procurar descobrir a todo custo o “pai” ou a “mãe” ainda não encontrados. Muito menos ser-lhe-ia necessário crer-se investido de um papel parecido em relação a quem quer que seja. É principalmente aqui que conviria ser lento em crer nesta relação e espontaneamente reticente em empregar um vocabulário da paternidade ou da filiação espirituais, o que corresponderá nunca, senão muito excepcionalmente, à realidade vivida.

Um verdadeiro acompanhamento pode, aliás, exercer-se de muitas outras maneiras, e não é proibido pensar que algo deste carisma excepcional está obscuramente presente em toda relação entre crentes. Somos, talvez, todos chamados a ser um pouco pai e mãe de uma multidão de irmãos. Sem pretendê-lo e freqüentemente sem que nos demos conta. À luz dessa graça “paternal”, como uma analogia principal, vários aspectos de nossas relações fraternas de todos dos dias, mais humildes emais modestas, podem aclarar-se com uma nova iluminação. Todas comunicam, sem dúvida, algo desta graça que Deus decidiu conceder-nos através de nossos irmãos e irmãs.

O acompanhado

Diante disso que vimos, pressupõe-se que aquele que busca o AE tem consciência da necessidade de alguém que o conduza, ou melhor, que caminhe com ele neste caminho rumo a configuração de Cristo. Quem assim procede sabe-se protagonista de sua história pessoal e responsável de suas decisões. Não estará buscando quem o supra na revisão de sua vida, no exame de sua consciência, na análise de suas motivações e atitudes, mas quem o acompanhe e oriente em sua reflexão e o ilumine.

Suposta a liberdade e a livre eleição de quem busca essa ajuda de forma permanente, não meramente ocasional, devem existir nele, ademais, as seguintes atitudes: sinceridade – O que se está procurando no AE? É a primeira pergunta que deve formular-se tanto o acompanhador como o acompanhado. Supõe-se que a pessoa quer verdadeiramente conhecer-se a si mesma e ser autêntica, que está disposta a buscar lealmente a vontade de Deus e cumpri-la, que não se contenta com o estilo de vida aceitável exteriormente, mas espiritualmente medíocre.

A sinceridade para consigo mesmo e o acompanhante supõe coragem e humildade para reconhecer-se como se é – não como se quereria ser –, com qualidades e defeitos, sem pretender vangloriar-se por aquelas nem exagerar a própria pobreza e as próprias limitações. Porém, precisa também aceitar sem regateios aquilo que possa ser vontade de Deus e aquilo que pode indicar o acompanhador.

Quem está seguro de si mesmo se crê justo e refugia-se no cumprimento de algumas normas, dificilmente se descobrirá pecador, necessitado de conversão ou estimulado a progredir segundo o Espírito. Facilmente buscará reconhecimento de seus méritos ou o aplauso do acompanhador.

Confiança – Este é o pressuposto elementar para a sinceridade e a abertura de coração, mas não se outorga senão a quem tem a credibilidade. Baseia-se na admiração, no reconhecimento espiritual do acompanhador, de sua experiência ou sua doutrina, na simpatia que inspira em conjunto. Isto faz que se trate de alguma coisa de pessoal e misterioso, sem razões explícitas muitas vezes.

Oferecer a própria intimidade é pôr-se nas mãos de outra pessoa. Com efeito, ao acompanhador deve-se descobrir com simplicidade os desejos, dificuldades, critérios, percepções, tentações, tudo o que seja preciso para discernir com o acompanhado a vontade de Deus sobre este.

Docilidade – Outra vertente da confiança é a docilidade, o deixar-se conduzir. O acompanhamento não deve anular a própria liberdade, mas tampouco deve sub-valorizar a palavra do pai espiritual. É preciso haver uma disponibilidade para caminhar, pois o acompanhador não caminhará no meu lugar, apesar de estar caminhando ao meu lado. O acompanhador me auxiliará a identificar o caminho de salvação que Deus tem para mim, mas não poderá me fornecer “receitas” prontas e fáceis. Terei que assumir o caminho que leva à cruz de Cristo.

Escutar – Para que se reconheça essas pistas, que o acompanhador ajuda a encontrar, a atitude da escuta é indispensável. São Bento convida o discípulo a inclinar o ouvido do coração para receber de boa vontade o ensinamento do mestre (cf. Pról RB 1). Muitas vezes, por nunca ter tido alguém em sua família ou entre os amigos, que o escutasse, o acompanhado encontra uma grande chance de se manifestar verbalmente nos encontros de acompanhamento. É claro que falar é muito importante, principalmente por parte do acompanhado, mas isso não basta; os encontros não podem servir apenas para “desabafar”. É preciso ouvir; desejar ser conduzido; estar disposto a aprender; ser discípulo. Isso não quer dizer, mais uma vez, que se deva esperar respostas prontas ou “receitas” da parte do acompanhador, mas sim, estar disposto a levar em consideração seus apontamentos e interpelações, para que, juntos, discirnam a vontade de Deus. 

As respostas, na maior parte das vezes, terão que partir do acompanhado.

O acompanhador

“O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros ministros da tradição viva da oração.”(CigC 2690)

O AE ou a paternidade/maternidade espiritual é um ministério eclesial, é um carisma. Esta paternidade/maternidade está em relação com a paternidade/maternidade de Deus e não tem nada haver com paternalismo ou substituição afetiva. Este ministério está a serviço da Igreja, pois a vida espiritual é um bem comum da comunidade cristã e não algo individualista. O pai espiritual está servindo a um membro da comunidade e não um indivíduo isolado, por quem ele tem uma certa simpatia ou afinidade.

O acompanhador , como ministro de Deus e servo da Igreja, é antes de tudo, discípulo de Jesus Cristo, que nunca chega a categoria de mestre. Não é chamado para ser simplesmente um transmissor de teorias ou instruções. Antes, deve estar identificado interiormente com o Mestre, com seus valores e ideais; deve percorrer o caminho da cruz com ele e deixar-se guiar ele mesmo pelo Espírito Santo. É testemunha do Ressuscitado, ou seja, é aquele que fez experiência do mistério pascal de Jesus Cristo em sua própria vida.
Sua condição de instrumento de Deus lhe exige a humildade. Não poderá, com efeito, impor suas idéias ou preferências pessoais como critério de atuação para o acompanhado. Pelo contrário, sua atividade deve ser a de pôr-se à escuta de Deus para se tornar ele mesmo disponível à ação divina. Estar à escuta de Deus é um modo de abandonar-se a ele e deixar que o Espírito atue mediante a pessoa mesma.

A humildade indicada deve levar o acompanhador igualmente a expressar com simplicidade seu ponto de vista ou calar com paciência o que não vê com clareza que seja a vontade de Deus. É um modo de reconhecer sua própria pobreza e não suplanta a iniciativa ou a ação de Deus. Em última análise, Deus serve-se das pessoas, com seus talentos e também suas limitações.

Com isso, podemos deduzir, que para assumir este papel de pai/mãe espiritual, existem alguns requisitos ou disposições. Quem aceita a tarefa de acompanhar alguém na caminhada para a maturidade e a liberdade interior deve inspirar-se na concepção do homem positivo e aberto ao transcendente. Além disso, é necessário que conheça e aceite a si mesmo e que tenha alcançado nível normal de maturidade afetiva, de modo a não viver a relação de ajuda numa atitude centrada em si mesmo. Além dessas qualidades, o pai/mãe espiritual precisa cultivar algumas disposições fundamentais e indispensáveis:

Experiência espiritual – deve ser um homem/mulher espiritual, ou seja, com experiência de Deus em sua vida. Não se trata de um ofício qualquer, nem de que qualquer um possa desempenha-lo. Somente quem se sente chamado e capacitado por Deus poderá exercer esse ministério. Mais que o saber fazer importa o ser mesmo do acompanhador.

Preparação específica – o fato de ser dom não implica que quem o possui possa ficar de braços cruzados confiando no próprio carisma. Isso seria imprudente e revelaria que o acompanhador não avalia corretamente sua missão, não se interessando por adquirir uma preparação adequada. É necessário que se tenha um bom conhecimento da teologia, do magistério, de espiritualidade, além
de possuir um certo conhecimento de psicologia e das técnicas de diálogo pastoral convenientes para as entrevistas e a relação humana em geral.

Nenhum desses conhecimentos suprirá o dom do Espírito Santo, o dom da prudência e do discernimento especialmente, nem sua própria experiência espiritual, que é o que, em última análise, dá a medida de sua capacidade como acompanhador espiritual.

É preciso saber em que consiste o seu ministério, para tanto ele quanto o acompanhado, não se contentem em manter uma conversação distante do objetivo do AE. O acompanhador terá a responsabilidade de mostrar ao acompanhado as bases da relação e dos encontros em função do que se pretende, sem, contudo, ferir-lhe a liberdade.

Discrição – ainda que não entre no sigilo sacramental, a discrição e o segredo é algo suposto pela própria natureza do AE. A ausência desta condição destruiria o clima de confiança e desrespeitaria o universo interior daquele que abre o seu coração. Seria uma traição.

Autenticidade – tem liberdade em relação ao seu próprio mundo interior, aceitando-o com suas características positivas e negativas, e de apresentar-se aos outros com o rosto descoberto, evitando esconder-se atrás de máscaras. Está reconciliado ou pelo menos em um bom nível de reconciliação consigo mesmo.

Aceitação incondicional – é a atitude de respeito pelo outro, baseada numa visão positiva do homem em geral. A formação moralista, a atitude egocêntrica (eu sou a medida) e o papel de mestre e juiz atribuído ao pai espiritual tornam muito difícil a acolhida. Essa acolhida é essencial, pois gera no acompanhado o encorajamento para entrar no próprio mundo interior, para conhecê-lo e aceitá-lo; o início do processo de melhoria da auto-imagem; a superação de estados de desânimo, derrota, insegurança ou ansiedade; a conquista gradual de autonomia sadia pessoal; a força para superar os momentos críticos, na caminhada rumo a perfeição.

Empatia – é o que permite compreender o outro em um nível mais profundo; significa “entrar na pele do outro”, participando da sua experiência de sofrimento ou dificuldade. Esse esforço muitas vezes é impedido por parte do acompanhador por sua posição egocêntrica (dá exemplos a partir de si mesmo), pelo dirigismo (propor perguntas e respostas, soluções simplistas) ou pela tendência de julgar (condenação).
Capacidade de escutar – diria que esta é, talvez, a mais importante das atitudes ou qualidades de um bom acompanhador espiritual. Na maior parte dos casos, o acompanhado precisa apenas ser ouvido; saber-se ouvido; perceber que existe alguém que o ouve gratuitamente, sem exigências, cobranças ou expectativas. Sobres este ponto, especificamente, gostaria de aprofunda-lo a seguir.

A condição de escutar

Como vimos, a capacidade de escutar é tão importante para o acompanhador como para o acompanhado. Nesta relação entre estas duas pessoas, a escuta será o elemento de união, o lugar de encontro.
A escuta é esta atitude de respeito e reverência para com o outro, de distância e de proximidade ao mesmo tempo, sem ferir a individualidade, o segredo ou a intimidade não revelada. É ainda atitude de humildade, pois nesta relação comum, ambos estão aí para serem formados pelo grande acompanhador e mestre, Jesus Cristo, que emerge desse encontro no Espírito. Ouve-se na realidade o próprio Cristo neste encontro; o Verbo se encarna entre nós na pessoa do outro.

Se o acompanhador não está disposto a escutar, mas somente quer falar ou “ensinar”, não há relação de troca. A relação anda em mão única. Assim também, se o acompanhado não se coloca em atitude de escuta atenta para distinguir a voz suave do Espírito Santo, que o conduzirá à plenitude, seu objetivo de procurar um acompanhador é vão. Ele não precisa de mestre, pois é seu próprio mestre.

Há uma queixa freqüente entre os cristãos: “Não encontro pai espiritual”; ou então: “Não há mais pais espirituais na Igreja hoje”. Não que algo de objetivo não corresponda a esta queixa. Existem hoje, sem dúvida, um clima e certas condições que não facilitam mais a eclosão de uma tal relação. Subsiste, contudo, o fato de que o pressuposto essencial de um acompanhamento estará sempre do lado daquele que procura sinceramente, e que não lhe será possível não encontrar, se ele próprio está pronto. O provérbio da sabedoria hindu verifica-se aqui: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. Encontramos uma afirmação análoga em um apoftegma célebre: “Um pai do deserto pergunta a outro pai: Por que os monges de hoje não têm mais palavras a dar? (ou seja: por que não existem mais bons pais espirituais?) – Resposta: Porque os filhos não sabem mais escutar.” A qualidade da busca e da escuta acaba por suscitar o acompanhante. Certos autores antigos dirão: a qualidade da fé. É a resposta de Doroteu de Gaza a monges que se queixavam de não encontrar o pai espiritual tão longamente procurado, capaz de revelar-lhes a vontade de Deus: basta, respondeu ele, buscar verdadeiramente e humildemente a vontade de Deus. Após o que, poderíamos, a rigor, dirigir-vos a quem quer que fosse, mesmo a uma criancinha. Pois, Deus colocaria suas própria palavras na boca da criancinha, para atender à fé daquele que busca sinceramente. Por outro lado, mesmo que nos dirigíssemos a um profeta, mas sem uma fé suficiente, Deus colocaria, antes, um espírito de erro na boca do profeta, para confundir aquele que não está realmente disposto a escutar. Ainda uma vez, não é o saber, nem a experiência, nem a competência do acompanhante que contam, mas, bem antes, a disponibilidade profunda daquele que busca.

Escutar é muito mais que o mero ouvir; no contexto do acompanhamento e diálogo espiritual, é mais importante que falar; não é em vão que temos dois ouvidos e uma boca somente: devemos escutar duas vezes mais do que falamos. Para isso devemos nos exercitar. Assim como se faz necessária uma reabilitação de um membro que ficou muito tempo imobilizado, também precisamos reabilitar os sentidos que ficaram esquecidos ou inertes por muito tempo. O homem, afastado de Deus pelo pecado, deixou de escutar. Ficou surdo à voz Daquele que chama o seu nome, escondeu-se desse chamado atrás das moitas. Escondeu-se dessa voz que lhe falava ao coração, através da criação, dos acontecimentos e do próximo.

Escutar é o que a espiritualidade beneditina ensina numa cultura que vê, que fala, mas muito raramente escuta. Nossa espiritualidade remete à escuta de quatro realidades, como remédio para nossa “surdez espiritual”: os Evangelhos, a Regra, um ao outro, e ao mundo que nos cerca. Muitos de nós ouvimos com facilidade uma ou duas dessas realidades, mas dificilmente ouvimos as quatro. Ouvimos as necessidades dos pobres, mas nos esquecemos da leitura do Evangelho. Procuramos aconselhamento espiritual, mas ignoramos ou negligenciamos as intuições das pessoas com as quais vivemos. Preferimos ouvir-nos a nós mesmos a ouvir corações mais sábios por medo de que possam nos levar para além de nós mesmos. A espiritualidade beneditina requer a combinação de tudo isso.

No fundo, estas quatro realidades são simplesmente quatro dimensões de uma única e mesma realidade: a Palavra de Deus. A Palavra de Deus que se manifesta ou se faz ouvir através das Escrituras, da Tradição, de nossos irmãos, da criação e da história.

É desse contato íntimo com a Palavra de Deus, que na tradição monástica chamamos de Lectio Divina, que descobriremos a maravilha de escutar. É daí que receberemos a sabedoria, a humildade, a docilidade e a clareza da vontade de Deus em nossa história de salvação pessoal. Não há melhor escola de discipulado e de pastoreio que a Lectio Divina, visto que ela coloca nossas vidas à luz da Palavra, iluminando nossos corações e nos transmitindo a mentalidade de Cristo, para enxergarmos o mundo e as pessoas com os olhos de Cristo, julgarmos como Cristo, amarmos como Cristo. A Lectio Divina nos forma neste processo de ver a vida e as pessoas como elas verdadeiramente são. É sobre esta prática milenar no seio da Igreja, herdada por nossos pais do judaísmo, que prosseguiremos tratando.

Bibliografia

OCCHIALINI, U. Direção Espiritual – in Dic. De Mística ed. Loyola/ed.Paulus VALDERRÁBANO, J.F. Direção Espiritual – in Dic. Teológico da Vida Consagrada ed. Paulus LOUF, A. Mais Pode a Graça – ed. Santuário SZENTMÁRTONI, M. Introdução à Teologia Pastoral ed. Loyola CHITTISTER, J.D. Sabedoria que Brota do Cotidiano – viver a Regra de S.Bento hoje ed. Subiaco VVAA Lectio Divina ontem e hoje ed. Subiaco COLOMBÁS, G.M. Diálogo com Deus ed. Paulus
Bibliografia de apoio CURY, A. Coleção “Análise da Inteligência de Cristo” ed. Academia de Inteligência POWELL, J./BRADY, L. Arrancar Máscaras e Abandonar Papéis ed. Loyola GRÜN, A. O céu começa em você ed. Vozes ------------- As exigências do silêncio ed. Vozes ------------- Perdoa a ti mesmo ed. Vozes ------------- O ser fragmentado ed. Idéias e Letras

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sábado, 4 de agosto de 2012

Jornal Escuta Filho - edição de agosto / 2012


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Jornal Escuta Filho - edição de agosto / 2012 - pag. 2



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Jornal Escuta Filho - edição de agosto / 2012 - pag. 4


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domingo, 29 de julho de 2012

Entrega do ofício abacial





Madre Estefânia completa 75 anos e com isso deixa o laborioso cargo de abadessa de nosso Mosteiro, com toda nossa gratidão, reconhecimento e estima pelo empenho e condução do Mosteiro nesse período de doze anos.


Pedimos que reze conosco em vista da próxima eleição:



Senhor, nosso Deus e Pai, cuja providência jamais falha, atendei as súplicas de vossas filhas, neste momento de expectativa. O Espírito Divino nos conduza e faça manifestar vossa vontade na escolha daquela que chamareis para “fazer as vezes de Cristo”, garantindo a continuidade da presença de vosso amado Filho,como Pastor e guia desta comunidade. Confiantes vos pedimos por intercessão de Nossa Mãe, a Senhora das Graças. 


Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.


sábado, 28 de julho de 2012

Oblatos prestam homenagem a Madre Estefânia



Os oblatos beneditinos da Abadia de Nossa Senhora das Graças - Belo Horizonte - realizaram neste sábado, 28, uma homenagem a madre Estefânia Vieira, que se prepara para entregar o ofício como abadessa do mosteiro.

Clique aqui e veja as fotos do evento.

domingo, 22 de julho de 2012

A Liturgia como catequese dos sentidos








Dom Paulo Domiciano, osb. 
(artigo retirado do site http://www.transfiguracao.com.br/)


TODOS OS SENTIDOS ORAM


A oração cristã não é um processo de desencarnação, a fim de chegar mais depressa à Deus. No Evangelho, Jesus disse que “Deus é Espírito e aqueles que o adoram, é em espírito (en pneumati) e verdade que devem adora-lo” (Jo 4,24). “Espírito” aqui não quer dizer intelecto (nous), mas sim sopro divino (pneuma). Portanto, orar em espírito não quer dizer “colocar entre parênteses o uso de nossos sentidos”, fechar as portas da percepção, mas, ao contrário, abri-las, introduzir pneuma, sopro, em cada um deles, para que se tornem os órgãos do conhecimento de Deus. aliás, foi assim que os padres da Igreja o compreenderam, quando elaboraram a doutrina dos “sentidos espirituais”, isto é, dos sentidos espiritualizados, habitados, animados pelo Espírito de Deus. Nesta acepção, o ser humano, na antropologia cristã, não é o “túmulo da alma” (cf. Platão), mas o “Templo do Espírito” (cf. S.Paulo).
Orígenes, e em sua esteira, Gregório de Nissa, Macário, Diádoque de Fótice, Máximo o Confessor e Simeão o Novo Teólogo propuseram toda uma pedagogia dos sentidos espirituais, aliás estreitamente ligada à vida sacramental, pois se trata sempre de elevar-se do domínio sensível ao reino que está “além dos sentidos”, de “ir dessas realidades que passam para a realidade que não passa”. Os sentidos não são destruídos, mas transfigurados; eles se tornam sentidos divinos, que tornam o ser humano cada vez mais “capax Dei”.


“Um exame da questão fará dizer, conforme o termo da Escritura, que existe uma espécie de gênero, um sentido divino que o bem-aventurado encontra no presente, no dizer de Salomão: „encontrarás um sentido divino‟. E este sentido divino comporta duas espécies: a vista que pode fixar as realidades superiores aos corpos, das quais fazem parte os querubins e os serafins; o ouvido que percebe os sons cuja realidade não está no ar; o gosto para saborear o pão descido do céu e que dá a vida ao mundo; da mesma forma o olfato, que sente aqueles aromas de que fala Paulo, que se diz ser „para Deus o bom odor de Cristo‟; o tato, graças ao qual João afirma ter tocado com suas mãos „o Logos da Vida‟. Tendo encontrado o sentido divino, os bem-aventurados profetas olhavam divinamente, escutavam divinamente, saboreavam e sentiam também o aroma, por assim dizer, de um sentido que não é sensível; e tocavam o Logos pela fé, de modo que uma emanação lhes vinha de longe para curá-los. Assim, viam o que escrevem terem visto, ouviam o que dizem ter ouvido, experimentavam sensações da mesma ordem quando comiam – como eles o notaram – o „rolo‟ de um livro que lhes era dado” (Orígenes. C.Cels.I,48)


Ainda para Orígenes, o Deus que habita uma “luz inacessível” pode ser dito apreensível de alguma maneira pelos sentidos e não somente pelo coração e pelo intelecto, porque ele se encarnou realmente em Jesus Cristo. Como dirá Irineu: “Jesus é o visível do Invisível”. Deus, ninguém jamais viu, nem jamais o verá. Deus não é apreensível, compreensível, a não ser em sua criação ou em sua “humanidade”.
Cristo se torna o objeto de cada sentido da alma. Ele se chama verdadeira luz para iluminar os olhos da alma; chama-se verbo para ser ouvido, pão para ser saboreado; assim também ele é chamado óleo da unção e nardo para que a alma se deleite no aroma do logos; ele se tornou “o verbo feito carne” palpável e apreensível, para que o ser humano inferior possa apreender o Verbo da vida. O mesmo Verbo de Deus é tudo isto (Luz, Verbo etc), e se torna assim numa oração fervorosa e não permite que nenhum dos sentidos espirituais seja desprovido de graças (Orígenes. Cant.II).


 O que era desde o princípio,
 O que ouvimos,
 O que vimos com os nossos olhos,
 O que contemplamos,
 O que nossas mãos apalparam a respeito do Verbo da Vida.
 Porque a vida se manifestou...
 E nós testemunhamos(IJo 1, 1-2).


OUVIR


“Ouve, Israel... amarás...” Este é o primeiro mandamento dado à Israel: ouvir. Orar, na verdade, não pé em primeiro lugar falar com Deus, é antes calar-se para ouvir. E o que se ouve primeiro não é seu infinito silêncio, é o barulho de nossos pensamentos, de nossas representações, dos nossos conceitos, forjados ao longo dos séculos. Mesmo nesses barulhos é preciso ouvir alguma coisa de Deus. Ora, Deus não é “uma coisa que fala ou conversa” mas “Alguém” cuja presença ressoa em nós e às vezes faz nascer o canto, às vezes a palavra profética. Ecos poderosos e incertos desta Presença.
O povo de Israel é um povo da escuta, que vive no deserto, onde não há o que ver. Orar, para Israel, é escutar. Prestar atenção e, às vezes, resistir ao desejo de ouvir alguma coisa, até que o silêncio aprofunde em nós um desejo mais elevado. Compreender então que aquele que nos fala jamais nos dirá uma palavra...
Escutara faz-nos calar em todos os sentidos e, neste silêncio, aprendemos até que ponto o Outro é totalmente Outro e até que ponto Ele existe...


VER


“Eu te conhecia só por ouvir dizer, mas agora meus próprios olhos te viram. Por isso eu me retrato e me arrependo, eu me retrato sobre o pó e a cinza” (Jó 42, 5-6).
É assim que termina o livro de Jó. Tais palavras parecem nos indicar que existe uma certa superioridade da visão sobre a audição. A escuta mantém a distância; no olhar, a presença aparece em sua proximidade.
O grande desejo do homem é ver a face de Deus, ou seja, ver a Deus como Ele é. Mas sabemos, segundo a tradição vetero-testamentária, que é impossível ver a Deus e continuar vivendo, por isso só podemos ver as “costas de Deus”, ou seja, só podemos reconhecê-lo em suas obras, o seu “rastro”. De fato, para ver a Deus, o olhar precisa de uma morte, de uma purificação, assim como o ouvido. Do contrário, corre-se o risco de ver apenas uma miragem, uma projeção, visto que nosso olhar está muitas vezes carregado de lembranças, de julgamentos, de comparações...
Jesus sabia ver as coisas e as pessoas. Onde viam, por exemplo, uma adúltera, Jesus via uma mulher. Seu olhar não se detinha na máscara ou no disfarce, mas contemplava o rosto. Orar é compreender o rosto das coisas, isto é, sua presença, é tratá-las fraternalmente por tu, o que faz delas um sinal da ternura de Deus. É assim que podemos ver a Deus. Começamos a reconhecer sua
face oculta em toda a criação e particularmente em seus filhos e nosso irmãos. Passar da observação à contemplação, este é o movimento da oração dos olhos.


TOCAR


Ouvir e ver nos mantêm na proximidade. Mas a presença só se estreita pelo tocar. Aliás é a progressão indicada por João, como se o uso de cada sentido manifestasse um grau de intimidade particular com o Verbo da Vida.
O que nós ouvimos, vimos, apalpamos, precisa S. João, é “o que é desde o começo”. Nada temos a acrescentar, nada a inventar; trata-se de aplicar nossos sentidos ao que é, para que isto possa manifestar-se.


O tocar algumas vezes mete medo, como se estivesse ligado a uma sensoriedade mais densa do que a do escutar ou do ver, mais ligada à materialidade, ao peso das coisas.
Se na oração podemos ouvir o inaudível e ver o invisível, podemos ainda tocar e sentir o impalpável? Isso depende de como tocamos as coisas e as pessoas. Há pessoas que nos tocam como uma crosta, uma casca; outras que nos remexem até a seiva, até o cerne. Há mãos que nos achatam, nos coisificam, nos bestializam; e há mãos que nos pacificam, nos curam e algumas vezes até nos divinizam, quando nos impõem as mãos para a cura ou também para a comunicação da graça.


Ao final da parábola do filho pródigo (Lc 15, 11ss) o pai acolhe o filho com um abraço e cobre-o de beijos. Jesus nos revela, portanto, um Pai que se deixa sentir face-a-face, que nos aperta contra seu peito e transmite através desse gesto o seu amor misericordioso.
Recebemos dos monges antigos a tradição de que o trabalho é oração, que nossas mão oram quando trabalham. Se é assim, podemos dizer também que, quando cheias de amor e de respeito, nossas mãos rezam quando tocamos ou acariciamos. A oração do tocar é a oração de um corpo que não se agarra avidamente, que não se fecha ao outro. Tocar a Deus ou deixar-se tocar por Ele não é sentir-se esmagado, mas sentir-se cercado de espaço; sentir-se livre.


SABOREAR


À força de ouvir bem, ver bem, e tocar bem, a Presença tornou-se mais familiar. O contato foi estabelecido. Será que podemos avançar mais um passo na intimidade? O Salmo nos convida a isto : “Provai como é bom o Senhor”. Trata-se de provar e saborear esta Presença. “Como é doce ao paladar a tua promessa! Mais que o mel na boca” (Sl 129,103) Orar é ter o gosto de Deus. “Que ele me beije com os beijos de sua boca”, diz o primeiro versículo do Cântico dos Cânticos.


“Por que a Escritura não diz: que ele me ame, em vez de „que ele me dê um beijo‟? Pelo beijo, os amigos trocam seus espíritos (seus sopros), pois o beijo se dá na boca, fonte do espírito (pneuma). Quando os espíritos de dois amigos se encontram por um beijo, boca a boca, esses espíritos não se separam mais um do outro. Daí que a morte por um beijo é tão desejável: a alma recebe um beijo do Senhor, e ela se une assim ao Espírito Santo para não mais separar-se dele” (Zohar II 124b).


Esta linguagem pode exasperar-nos, mas se Deus “fala aos humanos” por que não se dirá também que “Ele os abraça”? A tradição nos diz que Moisés teria morrido com um beijo de Deus, indicando desta maneira, de modo simbólico, em que estado de união o havia levado sua oração.
Deus, na experiência de oração, não é sem sabor, ainda que nenhum sabor, nenhuma comparação possa aproximar-se da Realidade que Ele é. Os padres da Igreja – seguindo os rabinos – retomarão este tema do gosto na oração e do beijo místico a propósito da Eucaristia. O sacramento é o sinal sensível de uma realidade invisível, como o beijo da mãe a seu filho é o sinal sensível do amor que ela tem por ele. A Eucaristia é o sinal sensível do amor que Deus tem por nós. Ele se faz nosso pão, nosso vinho; Ele quer ser saboreado, conhecido do interior.


Sabemos bem quais as repercussões, o corpo humano, de um beijo nos lábios e o frêmito íntimo que ele pode excitar.
A oração saborosa é uma entrada na câmara nupcial, mistério da união do criado com o Incriado. Deus é então experimentado, dirá Santo Agostinho, como “totalmente Outro que eu mesmo e mais eu do que eu mesmo”.


O CHEIRO


Depois do abraço, o corpo do outro deixou no nosso próprio corpo um pouco de seu perfume e pode-se permanecer ainda por muito tempo como que impregnado de sua presença... De novo, é a metáfora amorosa que parece mais adequada que a metáfora conceitual para descrever a vivência desta forma de oração: “Meu Bem-Amado é para mim como um sachê de mirra entre os meus seios” (Ct 1,13).


Não há imagem mais bela, dirão os rudes ascetas do deserto, para descrever os mais altos graus da oração do coração. A presença de Deus nos impregna totalmente, por dentro e por fora, e todos os nosso atos são como a aura perfumada de Cristo vivendo em nós, o “bom odor do ressuscitado” como nos vai dizer São Paulo.


Por toda parte, nenhuma tradição ignora o poder do incenso. Na verdade, seu papel é fazer-nos entrar num novo estado de consciência, despertar-nos à beleza da Presença. Então pode-se não querer mais ouvir nada, fechar os olhos, “apenas respirar” e, em cada inspiração, sentir espalhar-se em todos os membros a própria Presença do Vivente.
Difundir seu perfume simboliza igualmente o ato pelo qual a pessoa se entrega totalmente a Deus em sua oração. É o ato de amor por excelência: pensemos em Maria Madalena aos pés de Jesus.


Quando dizemos com o Salmo: “Que minha oração suba a Ti como o incenso”, isto quer dizer que nós nos entregamos a Deus na “nossa essência, como na nossa existência”. Tudo lhe pertence doravante, como o grão de incenso pertence à chama.
Orar não é buscar sensações. Muito menos é comprazer-se nelas, mas é acolhê-las, caso apareçam, como um dom de Deus. Sobre isso, já nos precaveram os grandes mestres da mística, como Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Convém utilizar tais sensações com discernimento: dos sentidos como da razão existe uma utilização divina, natural ou demoníaca.


A utilização divina ou celeste é a utilização que podemos fazer dos sentidos na oração: orientá-los para Deus e dirigir-nos a Ele com todo o nosso ser. A utilização natural ou terrestre é a utilização que podemos fazer dos sentidos na meditação, para ouvir melhor, ver, saborear, tocar, respirar “o que É”. A utilização demoníaca, por sua vez, é a utilização que podemos fazer dos sentidos num narcisismo estéril e esquizóide que nos corta do Real. A pessoa se fecha então (estar no inferno [enfer] = estar fechado) numa seqüência desconexa de sensações que são tomadas como toda a realidade, absolutizadas do relativo que é de novo uma forma de idolatria.


A sensação pode, portanto, ser um ícone, uma imagem ou um ídolo:


1. um ícone, quando ela nos coloca na presença de Deus; realidade visível que nos conduz à Realidade Invisível;
2. uma imagem, quando ela nos revela a beleza de toda superfície, mas sem penetrar em sua profundidade;
3. um ídolo, quando nós somos “alienados” à sua forma particular e somos tentados a tomá-la pela “única realidade”.
A LITURGIA
Deus quis dar-se a comunicar com o homem dando-se a si mesmo como Palavra mais eloqüente. O homem, por sua vez, para corresponder a essa comunicação, responde dentro de sua condição humana, utilizando-se do símbolo para isso.
A liturgia é uma dinâmica de DOM-ACOLHIMENTO, que tem sua origem no seio da própria Trindade e que se estende sobre a criação. Deus se doa e o homem o acolhe. Por sua vez o homem busca corresponder ao dom e isso se faz no símbolo. A liturgia, portanto, é este espaço onde acontece a manifestação e o encontro entre Deus e criação. É o lugar da epifania de Deus.
A liturgia na tradição antiga, que é o lugar da oração comum, vai ser também o lugar da purificação e da unificação de todos os sentidos. Poderíamos dizer, que a liturgia promove a catequese, a educação dos sentidos e os redireciona para Deus. Esta liturgia dirige-se, de fato, não apenas ao intelecto e ao coração, mas também a todos os sentidos:
1. aos ouvidos, pelos cantos e pela Palavra proclamada,
2. aos olhos, pelos ícones e pelas luzes,
3. ao tato, pela postura, pelas prostrações, pelas procissões, pela dança (porque não!) e pelo contato com os ícones e com os irmãos, pelas imposições das mãos e pelas unções,
4. ao paladar, pela Eucaristia,
5. ao olfato, pelo incenso, pelo perfume das flores e dos santos óleos.
Nenhum sentido deve ser excluído do louvor. É o ser humano inteiro que deve entrar na Presença; é o próprio processo da Transfiguração. A liturgia é a oração de todos os sentidos unidos, como “ovelhas racionais”, a chamado do Verdadeiro Pastor.


VIGÍLIA PASCAL – A MÃE DE TODAS AS VIGÍLIAS


1. bênção do fogo e preparação do círio pascal
- todos estão reunidos ao redor do fogo: sentem o seu calor e são iluminados por ele - o fogo é abençoado e incensado: todos podem sentir o perfume do incenso que sobe ao céu, ao ar livre - o círio é gravado com o sinal da cruz e os grãos de incenso são nele cravados; é símbolo de Cristo, luz do mundo, Alfa e Omega, presente em nosso meio, ontem, hoje e sempre; é um sinal visual muito marcante
2. procissão
- o círio é aceso e levado até a porta da Igreja pelo diácono que o apresenta aos fiéis anunciando Lumen Christi e o povo aclama Deo Gratias; é a primeira aclamação que se ouve no silêncio da noite
- os fiéis entram na igreja em trevas, nada vêm. Começam a acender suas velas no círio pascal e a igreja aos poucos vai se iluminando; a luz do ressuscitado nos permite enxergar em meio às trevas. - em tons crescentes, o diácono ainda proclama o Lumen Christi por mais duas vezes: há um crescente no volume das vozes que ecoam dentro da igreja. Nosso coração começa a se encher de júbilo.
3. Exultet – Proclamação da Páscoa
4. Liturgia da Palavra – leituras e salmos cantados
- após a última leitura do AT o Gloria é entoado e os sinos repicam anunciando a alegria da Igreja - o diácono anuncia uma grande alegria: o Aleluia - Evangelho e homilia
5. Liturgia batismal
- Ladainha - benção da água: introduz-se o círio dentro da água, sinal de que é o próprio Cristo quem santifica a água em que serão lavados os novos membros da Igreja - profissão de fé - rito do batismo e da crisma (no caso de adultos) - renovação das promessas batismais - aspersão da água
6. liturgia eucarística